II.
Banha o sol os horisontes, Trepa os castellos dos céos, Aclara serras e fontes, Vigia os dominios seus: Já descahe p’ra o occidente, E em globo de fogo ardente Vai-se no mar esconder; E lá campeia o gigante, Sem destorcer o semblante, Immovel, mudo, a jazer!
Vem a noite após o dia, Vem o silencio, o frescor, E a brisa leve e macia, Que lhe suspira ao redor; E da noite entre os negrores, Das estrellas os fulgores Brilhão na face do mar: Brilha a lua scintillante, E sempre mudo o gigante, Immovel, sem acordar!
Depois outro sol desponta, E outra noite tambem, Outra lua que aos céos monta, Outro sol que após lhe vem: Após um dia outro dia, Noite após noite sombria, Após a luz o bulcão, E sempre o duro gigante, Immovel, mudo, constante Na calma e na cerração!
Corre o tempo fugidio, Vem das aguas a estação, Após ella o quente estio; E na calma do verão Crescem folhas, vingão flores, Entre galas e verdores Sazonão-se fructos mil; Cobrem-se os prados de relva, Murmura o vento na selva, Azulão-se os céos de anil!
Tornão prados a despir-se, Tornão flores a murchar, Tornão de novo a vestir-se, Tornão depois a seccar; E como gota filtrada De uma abobada escavada Sempre, incessante a cahir, Tombão as horas e os dias, Como phantasmas sombrias, Nos abysmos do porvir!
E no feretro de montes Inconcusso, immovel, fito, Escurece os horisontes O gigante de granito: Com soberba indifferença Sente extincta a antiga crença Dos Tamoyos, dos Pagés; Nem vê que duras desgraças, Que lutas de novas raças Se lhe atropellão aos pés!
E lá na montanha deitado dormido Campeia o gigante!--nem póde acordar! Cruzados os braços de ferro fundido, A fronte nas nuvens, e os pés sobre o mar!....