III.
No em tanto a vida soportar já devo, Soffrer o peso da existencia ingloria, E revolvendo o coração chagado, Nos seus estragos numerar meus dias.
Na terra existo, como um som queixoso, Um echo surdo, que entre as fragas dorme, Ou como a fonte, que entre as pedras corre, Ou como a folha sob os pés calcada.
Uma alma em pena, que procura os restos Não sepultados,--uma flôr que murcha, D’uma harpa a corda, que por fim rebenta, Ou luz que morre.
Prazer não acho de avistar lua Pallida e bella na soidão do espaço; Nem vivos astros, nem perfumes gratos Me dão consolo.
Nada percebo nos confusos roncos Do mar, que bate as solitarias praias; Nem nos gemidos da frondosa selva, Que o sopro amigo de uma aragem move.
Conviva infausto d’um festim, que odeio, Ás proprias galas que vaidosa ostenta A natureza--não se ri minha alma, Nem de as notar meu coração se alegra.
E sinto o mesmo que sentira o frio, Mudo cadaver dos festins do Egypto, Se ver pudesse, contemplando o nada Das vãs grandezas.
Mas já que os olhos sobre mim pousaste, Teus meigos olhos, donde o amor lampeja; Pois que os teus labios para mim se abrirão, Teus meigos labios;
Já que o perfume da tua alma d’anjo Embalsamou-me o coração de aromas; Já que os prazeres da eternal morada De longe, em sonhos, antevi comtigo:
Já posso a vida supportar, já devo Sofrer o peso da existencia inutil; Já do passado e do porvir me esqueço, E o meu presente de te amar se ameiga.
* * * * *
RETRACTAÇÃO.
Son reo, non mi difendo; Puniscimi, se vuoi! METASTASIO.
Perdoa as duras frases que me ouviste: Vê que inda sangra o coração ferido, Vê que inda luta moribundo em ancias Entre as garras da morte.
Sim, eu devera moderar meu pranto, Soffrear minhas iras vingativas, Deixar que as minhas lagrimas corressem D’entro do peito em chaga.
Sim, eu devera confranger meus labios, Mordel-os té que o sangue espadanasse, Afogar na garganta a ultriz sentença, Apagal-a em meu sangue.
Sim, eu devera comprimir meu peito, Conter meu coração, que não pulsasse, Apagado volcão, que inda fumega, Que faz, que jorra cinzas?
Que m’importava a mim teu fingimento, Se uma hora fui feliz quando te amava, Se ideei breve sonho de venturas, Dormido em teu regaço;
Luz mimosa de amor, que te apagaste, Ou gota pura de crystal luzente Filtrando os poros de uma rocha a custo, Cahida em negro abysmo!
Devera pois meu pranto borrifar-te Amigo e bemfazejo, como aljofar De branco orvalho em perolas tornado N’um calice de flôr;
Não converter-se em pedras de saraiva, Em chuva de graniso fulminante, Que em chão de morte as petalas viçosas Desfolhasse entre-abertas.
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Feliz o doce poeta, Cuja lyra sonorosa, Resoa como a queixosa, Trepida fonte a correr; Que só tem palavras meigas, Brandos ais, brandos accentos, Cuja dôr, cujos tormentos Sabe-os no peito esconder!
Feliz o doce poeta, Que não andou em procura De terrena formosura, Nem as graças lhe notou! Que lhe não deu sua lyra, Que lhe não deu seus cantares, Que lhe não deu seus pezares, Nem junto della quedou!
Antes na mente escaldada Forma um composto divino De algum ente peregrino, De algum dos filhos dos céos; E ante essa imagem creada, Que vê sempre noite e dia, Dobra as leis da phantasia, Acurva os desejos seus.
É d’ella quando se carpe, É d’ella quando suspira, É d’ella quando na lyra Entoa um canto feliz: D’ella acordado ou dormido, D’ella na vida ou na morte, Tenha alegre ou triste sorte, Seja Laura ou Beatriz!
Que talvez a doce imagem, A scismada phantasia Ha de o poeta algum dia Junto de Deos encontrar; E que havendo-a producido Antes do mundo formado, Dê-lhe um sonhar acordado Por um viver a sonhar!
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ANHELO.
No lago interior d’um peito virgem, Que os ventos das paixões não agitárão, Hei de em cifras de amor gravar meu nome, Onde as nuvens do céo desenhão cores.
Nos meigos olhos, que embelleza o mundo, De corrosivas lagrimas enxutos, Meu pensamento gravarei n’um beijo, Onde as luzes do céo reflectem brilhos.
Em sua alma, onde uma harpa melindrosa Noite e dia seus canticos afina, Hei de a vida entornar em doces carmes, Onde imagens do céo sómente brilhão.
Que outra c’rôa melhor, que outra mais pura, Que uma c’rôa d’amor em fronte virgem?! Não peza sobre a fonte, não esmaga, Não punge o coração,--é toda amores!
Que outra c’rôa melhor, que outra mais bella Que a aureola, que Deos concede aos vates? Com sorriso de amor, talvez com pranto, Cede-a o vate á mulher, que mais o inspira!
Eu t’a cedo, eu t’a dou! C’rôo-te imagem Resplendente, invejada entre as mulheres; Um beijo só de amor tu me concedas, Um suspiro sequer do peito exhales.
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QUE ME PEDES.
Tu pedes-me um canto na lyra de amores, Um canto singelo de meigo trovar?! Um canto fagueiro já--triste--não póde Na lyra do triste fazer-se escutar.
Outr’ora, coberto meu leito de flores, Um canto singelo já soube trovar; Mas hoje na lyra, que o pranto humedece, As notas d’outr’ora não posso encontrar!
Outr’ora os ardores que eu tinha no peito Em cantos singelos podia trovar; Mas hoje, soffrendo, como hei de sorrir-me, Mas hoje, trahido, como hei de cantar?
Não peças ao bardo, que afflicto suspira, Uns cantos alegres de meigo trovar; Á lyra quebrada só restão gemidos, Ao bardo trahido só resta chorar.
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O CIUME.
Oh! quanta graça e formosura adorna Teu rosto eloquente e vivo! Se a sombra de um sorrir te afrouxa os labios, Prestes outro sorrir dos meus rebenta; Se vejo os olhos teus, que chorar tentão, Debalde o pranto meu represso engulo; Se do teu rosto as rosas se esvaecem, Eu sinto de temor bater meu peito; E quando os olhos teus nos meus se fitão, Nem pezares, nem dores me dominão; Mas sinto que o meu peito se enternece, Sinto o meu coração bater mais livre, Sinto o sorriso, que me ri nos labios, Sinto o prazer, que me transluz no rosto, Sinto delicias n’alma!
Quanta belleza tens!--quer dessas graças, Que o amor inveja--n’um saráu brilhante No meio de bellezas, que supplantas, Prazer e galas de as mostrar ressumbres; Quer estejas sósinha e pensativa, Quer viva e folgazã prazer incites:
Ou n’um corsel em páramos extensos, Correndo affoita e louca, e o pé mimoso Da carreira no afan por sob as vestes Transparecer deixando;
Ou balançada n’um ligeiro barco, Que de um lago tranquillo as aguas frisa, Soltando a voz as brisas namoradas, Que de te ouvir suspirão;
Ou n’uma bronca penha descalvada O mar e os céos contemples pensativa, E a redeas soltas do pensar divagues Nos campos do infinito;
Es sempre bella: já teus olhos brilhem Luz que fascina, ou morbidos reflexos, Teus labios entre-abertos sempre exhalão Calor, que incendio ateia.
Oh! que bella tu es, quando assentada No teu balcão, ao refulgir da lua, Manso te apoias em coxins de seda, E o bello azul dos céos triste encarando Pensas em Deos,--talvez no teu futuro, Talvez nos teus pezares,--que na fonte De limpha pura, crystallina e fresca Aquatica serpente usa occultar-se. Mas como es bella assim! co’a mão sem força Tirando sons perdidos, sons que encantão, Sons qu’infundem prazer, sons d’harpa tristes! Mas como es bella assim!--quando o teu peito Entre a gaza subtil de leve ondeia! Como a onda do mar pausada e fraca Se abaixa, e empola, e mais e mais se achega Á doce praia, onde os seus ais se quebrão; Assim teu peito bate, e nos teus labios Do extremo palpitar morre um suspiro. Como d’harpa afinada a corda sôa, Mal desfere seus sons outro instrumento; Assim tambem minha alma se entristece, Assim tambem meu peito arqueja e pula!
Eis porque amor me liga aos teus destinos, Porque sou teu escravo,--bem que saiba Que se a tua alma a belleza Tem de um anjo a formosura, Não tens de um anjo a candura, Nem tens delle a singeleza!
Eis porque ardo por ti, porque padeço Do inferno crus tormentos! Porque dos zelos o fel mancha minha alma De negros pensamentos!
Mas que importa este amor que me consome? Eu quero sentir dôr; Quero labios que entornem nos meus labios Alento escaldador!
Quero fogo sentir contra o meu peito, Quero um corpo cingir que eu sinta arder, Quero beijos só teus, caricias tuas, Que dão morrer!
Que importa ao edificio que scintilla, De roaz fogo tomado, Ser por um raio abrasado Ou por ignobil favilla?
É sempre ardor, sempre fogo, Sempre d’incendio o clarão, Sempre o amor que estúa e ferve Como um gigante vulcão.
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A NUVEM DOIRADA.
(N’UM ALBUM.)
A nuvem doirada se expraia no occaso, Roçando co’as franjas o throno de Deos; A aguia arrojada seus vôos levanta, Traçando caminhos nos campos dos céos!
Exhala perfumes a flôr do deserto, Embora dos ventos o sopro fatal Embace-lhe as côres,--e o mar orgulhoso Suspira queixoso--no extenso areal.
E os bardos mimosos nos cantos singelos Imitão as nuvens no incerto vagar: Vão sós como as aguias,--exhalão perfumes, Suspirão queixumes--das vagas do mar.
Por isso quem ama, quem sente no peito Cantar-lhe das lyras a lyra melhor; Os carmes lhes ouve, que os bardos só cantão Saudades, perfumes, enlevos e amor!
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SONHO DE VIRGEM.
A. D. A. C. G. A.