IV.
Porêm tu, afagada e querida, Com requebros donosos, gentis, Vai contente caminho da vida, Bello anginho, mimoso e feliz!
E do bardo a canção magoada, Quando a possas um dia escutar, Ha de ser como rota grinalda, Que perfumes deixou de exhalar!
E esta mão talvez seja sem vida, E este peito talvez sem calor, E memoria apagada e sumida, Talvez seja a do triste cantor!
* * * * *
URGE O TEMPO.
Move incessante as azas incansaveis O tempo fugitivo; Atraz não volta! A. DE GUSMÃO.
Urge o tempo, os annos vão correndo, Mudança eterna os seres afadiga! O tronco, o arbusto, a folha, a flôr, o espinho, Quem vive, o que vegeta, vai tomando Aspectos novos, nova forma, em quanto Gyra no espaço e se equilibra a terra.
Tudo se muda, tudo se transforma; O espirito, porêm, como centelha, Que vai lavrando solapada e occulta, Até que emfim se torna incendio e chammas, Quando rompe os andrajos morredouros, Mais claro brilha, e aos céos comsigo arrasta Quanto sentio, quanto soffreu na terra.
Tudo se muda aqui! sómente o affecto, Que se gera e se nutre em almas grandes, Não acaba, nem muda; vai crescendo, Co’ o tempo avulta, mais augmenta em forças, E a propria morte o purifica e alinda. Simelha estatua erguida entre ruinas, Firme na base, intacta, inda mais bella Depois que o tempo a rodeou de estragos.
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SOBRE O TUMULO DE UM MENINO.
25 de Outubro de 1848.
O involucro de um anjo aqui descança, Alma do céo nascida entre amargores, Como flôr entre espinhos!--tu, que passas, Não perguntes quem foi.--Nuvem risonha, Que um instante correu no mar da vida; Romper da aurora que não teve occaso, Realidade no céo, na terra um sonho! Fresca rosa nas ondas da existencia, Levada á plaga eterna do infinito, Como off’renda de amor ao Deos que o rege; Não perguntes quem foi, não chores: passa.
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MENINA E MOÇA.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux! CHENIER.
É leda a flôr que desponta Sobre o talo melindroso, E o arrebento viçoso Crescendo em floreo tapiz; É doce o romper da aurora, Doce a luz da madrugada, Doce o luzir da alvorada, Doce, mimoso e feliz!
É bella a virgem risonha Com seus musicos accentos, Com seus virgens pensamentos, Com seus mimos infantis; Como quanto enceta a vida, Que á luz sorri da existencia, Que tem na sua innocencia Da mocidade o verniz.
Vinga a flôr a pouco e pouco, Cada vez mais bem querida, Tem mais encantos, mais vida, Tem mais brilho, mais fulgor: De cada gota de orvalho Extrahe celeste perfume, E do sol no raio assume Cada vez mais viva côr.
Assim á virgem mimosa, Pouco e pouco, noite e dia, Mais viva flôr de poesia Do rosto lhe tinge a côr; E um anjo nos meigos sonhos, Do seu peito na dormencia Derrama o odor da innocencia, Um doce raio de amor!
Porque tudo, quando nasce, Seja a luz da madrugada, Seja o romper da alvorada, Seja a virgem, seja a flôr; Tem mais amor, tem mais vida, Como celeste feitura, Que sahe melindrosa e pura D’entre as mãos do creador.
28 de Julho.
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COMO EU TE AMO.
Como se ama o silencio, a luz, o aroma, O orvalho n’uma flôr, nos céos a estrella, No largo mar a sombra de uma vela, Que lá na extrema do horisonte assoma;
Como se ama o clarão da branca lua, Da noite na mudez os sons da flauta, As canções saudosissimas do nauta, Quando em molle vai-vem a náo fluctua;
Como se ama das aves o gemido, Da noite as sombras e do dia as cores, Um céo com luzes, um jardim com flores, Um canto quasi em lagrimas sumido;
Como se ama o crepusculo da aurora, A mansa viração que o bosque ondeia, O susurro da fonte que serpeia, Uma imagem risonha e seductora;
Como se ama o calor e a luz querida, A harmonia, o frescor, os sons, os céos, Silencio, e cores, e perfume, e vida, Os paes e a patria e a virtude e a Deos.
* * * * *
Assim eu te amo, assim; mais do que podem Dizer-t’o os labios meus,--mais do que vale Cantar a voz do trovador cançada: O que é bello, o que é justo, sancto e grande Amo em ti.--Por tudo quanto soffro, Por quanto já soffri, por quanto ainda Me resta de soffrer, por tudo eu te amo. O que espero, cobiço, almejo, ou temo De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas Com quanto amor eu te amo, e de que fonte Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo! Esta occulta paixão, que mal suspeitas, Que não vês, não suppões, nem te eu revelo, Só pode no silencio achar consolo, Na dôr augmento, interprete nas lagrimas.
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De mim não saberás como te adoro; Não te direi jámais, Se te amo, e como, e a quanto extremo chega Esta paixão voraz!
Se andas, sou o echo dos teus passos; Da tua voz, se fallas; O murmurio saudoso que responde Ao suspiro que exhalas.
No odor dos teus perfumes te procuro, Tuas pegadas sigo; Velo teus dias, te acompanho sempre, E não me vês comtigo!
Occulto e ignorado me desvelo Por ti, que me não vês; Aliso o teu caminho, esparjo flôres, Onde pisão teus pés.
Mesmo lendo estes versos, que m’inspiras, --Não pensa em mim, dirás: Imagina-o, si o podes, que os meus labios Não t’o dirão jámais!
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Sim, eu te amo; porêm nunca Saberás do meu amor; A minha canção singela Traiçoeira não revela O premio sancto que anhela O soffrer do trovador!
Sim, eu te amo; porêm nunca Dos labios meus saberás, Que é fundo como a desgraça, Que o pranto não adelgaça, Leve, qual sombra que passa, Ou como um sonho fugaz!
Aos meus labios, aos meus olhos Do silencio imponho a lei; Mas lá onde a dôr se esquece, Onde a luz nunca fallece, Onde o prazer sempre cresce, Lá saberás se te amei!
E então dirás: «Objecto Fui de sancto e puro amor: A sua canção singela, Tudo agora me revela; Já sei o premio que anhela O soffrer do trovador.
«Amou-me como se ama a luz querida, Como se ama o silencio, os sons, os céos, Qual se amão cores e perfume e vida, Os paes e a patria, e a virtude e a Deos!»
* * * * *
AS DUAS CORÔAS.
Hermosa, en tu linda frente El laurel sienta mejor, Que con su regio esplendor Corona de rei potente. G. y S.
Ha duas c’rôas na terra, Uma d’ouro scintillante Com esmalte de diamante, Na fronte do que é senhor; Outra modesta e singela, C’rôa de meiga poesia, Que a fronte ao vate alumia Com a luz d’um resplendor.
Ante a primeira se curvão Os potentados da terra: No bojo, que a morte encerra, Sobre a liquida extensão, Levão náos os seus dictames Da peleja entre os horrores; Vis escravos, crús senhores, Preito e menagem lhe dão.
E quando o vate suspira Sobre esta terra maldicta, Ninguem a voz lhe acredita, Mas riem dos cantos seus: Os anjos, não; porque sabem Que essa voz é verdadeira, Que é dos homens a primeira, Em quanto a outra é de Deos!
Se eu fora rei, não te dera Quinhão na regia amargura; Nem te qu’ria, virgem pura, Sentada sob o docel, Onde a dôr tão viva anceia, Tão cruel, tão funda late, Como no peito que bate Sob as dobras do burel.
Não te quizera no throno, Onde a mascara do rosto, Cobrindo o interno desgosto, Ser alegre tem por lei; Manda Deos, sim, que o rei chore; Mas que chore occultamente, Porque, se o soubera a gente, Ninguem quizera ser rei!
Mas o vate, quando soffre, Modula em meigos accentos, Seus doridos pensamentos, A sua interna afflicção; E das lagrimas choradas Extrahe um balsamo sancto, Que vale estancar o pranto Nos olhos do seu irmão.
Se eu fôra rei, não quizera Roubar-te á senda florida, Onde corre doce a vida No matutino arrebol; Gozas o sopro das brisas E o leve aroma das flores, E as nuvens, que mudão cores No nascer, no pôr do sol.
Gozão disto as que repousão Em taboas de vis grabatos; Não quem vive entre os ornatos D’um throno d’ouro e marfim! No solio triste, sentada, Não viras um rosto amigo, Nem mais viveras comtigo, Fôras escrava--por fim!
Vive tu teu viver simples, Mimosa e gentil donzella, D’entre todas a mais bella, Flôr de candura e de amor! C’rôa melhor eu t’offreço, D’ouro não, mas de poesia, C’rôa que a fronte alumia Com a luz d’um resplendor!
* * * * *
HARPEJOS.
Sweetest music!... SHAKSPEARE.
Da noite no remanso Minha alma se extasia, E praz-me a sós commigo Pensar na solidão; Deixar arrebatar-me De vaga phantasia, Deixar correr o pranto Do fundo coração.
Tudo é silencio harmonico E doce amenidade, E uma expansão suave Do mais fino sentir; Existo! e no passado Só tenho uma saudade, Desejos no presente, Receios no porvir!
Como licor que mana De cava, humida rocha, Que o sol nunca evapora, Nem limpa amiga mão; A dôr que dentro sinto Minha alma desabrocha; Que livre o pranto corre Da noite na solidão!
Attendo! ao longe escuto D’uma harpa os sons queixosos, Attendo! e logo sinto Minha alma se alegrar! Attendo! são suspiros De seres vaporosos, Que mil imagens vagas Me fazem recordar!
Tu que eras minha vida, Que foste os meus amores, Imagem grata e bella D’um tempo mais feliz, Que tens, que assim chorosa Suspiras entre as flores? Teu sou,--do juramento Me lembro, que te fiz.
Te vejo, te procuro, Teus mudos passos sigo, Em quanto, leve sombra, Fugindo vais de mi’! Unido ás notas da harpa Percebo um som amigo, Que me recorda o timbre Da voz que já te ouvi!
Na brisa que soluça, Na fonte que murmura, Nas folhas que se movem Da noite á viração, Ainda escuto os echos D’uma fugaz ventura, Que assim me deixou triste Em mesta solidão.
Prosegue, harpa ditosa, Nas doces harmonias, Que da minha alma sabes A magoa adormecer; Prosegue! e a doce imagem Dos meus primeiros dias Veja eu ante os meus olhos De novo apparecer!
Ai, forão como a virgem Que em sitio solitario Acaso um dia vimos Sósinha a divagar! Memoria bemfazeja, Que o gelido sudario, Que a morte em nós estende Só vale desbotar.
* * * * *
TRISTE DO TROVADOR.
E ella era esbelta e bem proporcionada; sua alma era como a sensitiva, e suas palavras erão doces e tinhão um perfume, que se não pode comparar. (_Duas noites de luar._)
E ella era como a rosa matutina Formosa e bella, Como a estrella que á noite ao mar se inclina, Saudosa era ella.
Seus olhos negros, vivos e rasgados, Eram delicias vel-os; E co’ a alvura do rosto contrastava A côr dos seus cabellos.
Quando alguem lhe fallava, então fallava Com voz macia, Que triste dentro d’alma nos filtrava Doce alegria.
E o seu timbre de voz movia as fibras Do coração, Como sons que a mudez da noite quebrão Na solidão.
Seu mais leve sentir patenteava No rosto ameno; Nuvemzinha da tarde, que se encherga Em céo sereno.
Topou-a acaso pensativa, errante, O trovador: «Feliz, disse elle, quem gozára os mimos Do seu amor!»
E ella deu-lhe do seio uma saudade Murcha, e no em tanto bella; E elle um culto votou, scismando extremos, Á pallida donzella.
Como fosse, porêm, breve a sua vida Como uma flôr, Em breves dias era mudo e triste O trovador.
* * * * *
Se alguma vez cantava,--então dizia Ao seu anjo do céo, que lá morava, Que de ter junto delle só pedia A vida sua, que tão erma estava.
* * * * *
VELHICE E MOCIDADE.
Eu levo á sepultura, uns após outros, A donzella gentil, o velho enfermo E o mancebo que folga descansado Á sombra da ventura. ...
«Minha filha, mais depressa, Mais depressa um pouco andemos, E da aurora que desponta Saudavel frescor gozemos!
«Senta-me em baixo do chorão, que dobra A verde rama sobre a campa núa De um ser de peito bom, de rosto bello, Que foi minha mulher, que foi mãi tua!
«O sol, nascendo apenas, vem primeiro Seus raios nessa campa dardejar, E á cançada velhice é bem fagueiro Esses restos da vida desfructar.»
* * * * *
Um cego e triste velho que tremia Á força dos invernos que passarão, Á filha nova e bella, assim dizia, Á filha que os amores cubiçarão.
E tinha o velho pae nos hombros della A mão crestada e morta e já rugosa, E ella ao pae, sollicita, extremosa, Guiava como um anjo e alva e bella.
* * * * *
«Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido, Oh filha da minha alma, oh meu thesouro, Tambem um tempo foi que entretecido Tive o fio vital de seda e d’oiro!
«Tambem meus olhos se expraiarão longe, Pela vasta extensão destas campinas; Tambem segui a tortuosa veia Desta linda corrente que se perde Além, por entre penhas; E a esmeraldina côr, de que se arreia A relva destes prados, destas brenhas, Meus olhos juvenis encheu de gozo, Que agora os olhos teus tambem recreia!
«E que prazer tão grande! o sol nascia N’um mar de luz brilhante! Levantava-se mais, brilhava, ardia, No prado verdejante, Na fonte e na devesa; E o mundo e a natureza De puro amor enchia! Destoucavão-se os montes de neblina, Que meiga e adelgaçada Pendia, como um véo de gaza fina Da celeste morada, Quando n’um mar formoso o sol nascia!
«O mundo era então luz--hoje é só trevas! O céo de puro azul via tingido, Via a terra de cores adornada, E na immensa extensão d’agua salgada Via a esteira de luz do sol luzido!
«Breve as horas passei de ser ditoso Aqui, neste lugar, ledo escutando Tão amavel tua mãi, tão carinhosa, Qu’instantes curtos me teceu fallando!
«Hoje existo somente porque existes, Desfructo outro viver que não vivia, Quando escutão-te a voz os meus ouvidos, Como sons de celeste melodia.
«Oh falla, falla sempre.--É doce ao velho Som d’argentina voz, que as fibras todas Do semivivo coração abalão, Como d’uma harpa antiga As deslembradas cordas, Que á mão experta e amiga Do trovador, n’um canto alegre estalão.
«É doce ao solitario a voz de um anjo Na sua solidão; E ao velho pai a voz da casta filha, Que falla ao coração.
«É doce, qual perfume matutino, Que a flôr exhala, Que pelo peito da mulher amante S’interna e cala;
«É doce, como a luz que se derrama Pela face do mar, Quando brando luar, da noite amigo, Vem nelle se espelhar.
«Falla, bem sei que amarga é tua vida, Que amargo é teu penar; No silencio da noite tenho ouvido Teu peito a soluçar!
«Oh falla, tu bem vês que se a tormenta Tetrica voa, Ao ninho de seus paes o passarinho Rapido voa.»
* * * * *
--Oh meu pai, como eu quizera Meus pezares te esconder; Mas tua filha, coitada, Em breve tem de morrer!
--Sinto que alento me falta, Que longe foge de mim; Sinto minha alma rasgar-se Por te deixar só assim; Meu bom pai, como está breve Da tua filha o triste fim!
--Alta noite, ouvi em sonhos, A chamar-me um serafim; Tinha alegria no rosto, Mas chorava sobre mim; Meu bom pai, como está breve Da tua filha o triste fim!
--E tu cá ficas sosinho, E tu cá ficas sem mim! Oh que n’alma só me peza Por te deixar só assim; Meu bom pai, que é já chegado Da tua filha o triste fim!--
E o velho, baixo fallando, Tristemente assim dizia: «Já fui feliz, já fui novo, Já fui cheio de alegria!
«Eu tive paes extremosos, Irmãos que m’idolatrarão, Eu tive castos amores, Que antes de mim se acabarão!
«Eu tive tantos no mundo Quantos se póde chorar; Perdi todos, tudo; ai, triste, Só eu não pude acabar!
«Ao sopro da desventura Só eu me não abalei, Que a todos--novos e velhos-- Á campa todos levei!
«Minha filha me restava! Eu já fantasma impotente, Sobre os torrões tropeçava Da cova aberta recente!
«Anjo de amor e bondade, Porque me deixaste assim! Tu morta, e na sepultura Que eu tinha aberto pr’a mim!
«Deos, Senhor, quanto foi longo O vaso em que fel traguei, Findo o julguei; restão fezes, As fezes esgotarei.»
* * * * *
E sobre a rosea face, ora amarella, A aurora sempre bella radiava, E o pai, ancião, que a dôr rasgava, Cingia ao corpo seu o corpo della.
Nem pranto nos seus olhos borbulhava, E nem nos labios seus a dôr gemia, E sua alma, qual vaso em calmaria, Entre vida e morrer n’um ponto estava.
O beijo paternal, por fim, lhe estampa Na filha, que prazeres só lhe dera; E filha e pensamento--alguem dissera Ter juntos sepultado a mesma campa!
Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos, Por que os venhas assim buscar á terra? Brilhe a virtude, quando reina o crime, O crime impune e vil, que ás tontas erra.
* * * * *
AS FLORES.
Ao Snr. JOSÉ PRAXEDES PEREIRA PACHECO, incançavel Botanico-florista, a quem devemos a introducção no paiz das mais bellas e curiosas especies de flores, que jámais aqui se virão.
Simples tributs du coeur, vos dons sont chaque jour Offerts par l’amitié, hasardés par l’amour. _Les Jardins._--DELILLE.
Tu que com tanto afan, com tanto custo, Estudando, inquirindo, e meditando, De estranhos climas transplantaste aos nossos As flores varias no matiz, nas formas, Modesto horticultor, dos teos desvelos Este só galardão recebe ao menos! Recebe-o: tambem eu gosto das flores, Folgo tambem de as ver n’um campo estreito De estranhas terras revelando os mimos E as galas d’outros céos:--aqui perfumão Nossos jardins de peregrina essencia! Melhorão-se talvez, que as não contristão Raios tibios do sol, nem turvos ares, Nem do inverno o furor lhes cresta o brilho.
Meigas flores gentis, quem vos não ama? Em vós inspirações o bardo encontra, Devaneios de amor a ingenua virgem, A abelha o mel, a humanidade encantos, Odores, nutrição, balsamo e cores. Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Linda virgem no albor da vida incerta, No meio das vivaces companheiras, Em forma de capella as vai tecendo Para cingir com ella a fronte e a coma, Que os annos no passar não enrugarão, Nem as cans da velhice embranquecerão. Resplendor d’innocencia, onde casados A açucena, e os jasmins aos brancos lirios Um só perfume grato aos céos envia; Meiga c’rôa d’angelica pureza, Ornamento da vida--que se rompe Ou quando os membros delicados vestem O grosseiro burel da penitencia, Ou do noivado as galas!--lá se acaba, Por fim aos pés do thalamo ou n’um tumulo! Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Quantas vezes, nas horas da ventura, A fallaz sensação d’um peito ingrato Não julgamos eterna, immensa, infinda!.... Alli nossos anhelos se concentrão, Nossa vida alli jaz:--cifra-se inteira N’um brando volver d’olhos, n’um accento, Que a ternura repassa, inspira, exhala! Um gemido, um suspiro, um ai, um gesto, Valem thronos, e mais,--o mundo e a vida! Mas esvae-se a paixão!... que fica? Apenas Um saudoso lembrar d’éras passadas, De scismadas venturas, não fruidas, Ás vezes uma flor!...--Flor dos amores, Quando extincta a paixão, porque inda existes? Espinhos de uma rosa emmurchecida, Porque sobreviveis ás folhas d’ella? Mais firme, mais leal, mais vivedoura Que a voluvel paixão, a flôr mimosa Talvez irrita a dôr, talvez a acalma. Emblemas do prazer, do soffrimento, Mensageiras do amor ou da saudade, Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Geme a fresca odalisca entre ferrolhos, Importuna presença a voz lhe tolhe Do não piedoso eunucho;--e estatua negra Respeitosa e cruel lhe espreita os gestos: Chora a guzla mourisca ao som dos ferros, Lastima-se a cadeia ao som dos passos, E a humana flôr definha entre as mais flores; Mil ouvidos a voz lhe escutão sempre, E cingidos de ferro, crús soldados D’entorno ao mésto harem velão sanhudos! Ruge, fero soldão! treplíca os bronzes Da masmorra cruel:--a planta humilde, E a escrava que recatas tão cioso, Zombão dos feros teus! Muda e singela, Ao través das prisões, dos teus soldados, Passa a modesta flôr! Vai n’outro peito, Mysterios não sabidos relatando, Contar do infausto amor as provas duras, Os martyrios da ausencia, as tristes lagrimas Que chora--ao reiterar protestos novos! Bem-fadadas do sol, do amor bemquistas, O orvalho as cria, as lagrimas as murchão: Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Quem tem o coração a amor propenso, Quem sente a interna voz que dentro falla, Delicado sentir d’um brando peito, Alma virgem que os homens não mancharão; Quem soffre ou tem prazer, ou ama, ou espera E vive e sente a vida, esse vos ama: Encantos da existencia em quanto vivos, Do revés, do triumpho companheiras, No berço, no docel, no mudo esquife, Sempre amigas eis vos encontramos. Meigas flores gentis, quem vos não ama?
Modesto horticultor, dos teus desvelos Este só galardão recebe ao menos; Paga-te sequer de ver mais bella, Mais vaidosa, melhor, do sol na terra, A flôr modesta, producção sublime De estranhos climas transplantada ao nosso.
Rio, 29 de janeiro de 1849.
* * * * *
O QUE MAIS DÓE NA VIDA.
I cannot but remember such things were, And were most dear to me. SHAKESPEARE.
O que mais dóe na vida não é ver-se Mal pago um beneficio, Nem ouvir dura voz dos que nos devem Agradecidos votos, Nem ter as mãos mordidas pelo ingrato, Que as devera beijar!
Não! o que mais dóe não é do mundo A sangrenta calumnia, Nem ver como s’infama a acção mais nobre, Os motivos mais justos, Nem como se deslustra o melhor feito, A mais alta façanha!
Não! o que mais dóe não é sentir-se As mãos dum ente amado Nos espasmos da morte resfriadas, E os olhos que se turvão, E os membros que entorpecem pouco e pouco, E o rosto que descora!
Não! não é o ouvir d’aquelles labios, Doces, tristes, compassivas, Sobre o funereo leito soluçadas As palavras amigas, Que tanto custa ouvir, que lembrão tanto, Que não s’esquecem nunca!
Não! não são as queixas amargadas No triumphar da morte; Que, se se apaga a luz da vida escassa, Mais viva a luz rutila; Luz da fé que não morre, luz que espanca As trevas do sepulchro.
O que dóe, mas de dôr que não tem cura, O que afflige, o que mata, Mas de afflicção cruel, de morte amara, É morrermos em vida No peito da mulher que idolatramos, No coração do amigo!
Amizade e amor!--laço de flores, Que prende um breve instante O ligeiro batel á curva margem De terra hospitaleira; Com tanto amor se ennastra, e tão depressa, E tão facil se rompe!
Á mais ligeira ondulação dos mares, Ao mais ligeiro sopro Da viração--destranção-se as grinaldas; O baixel se afasta, Veleja, foge, até que em plaga estranha Naufragado soçobre!
Talvez permitte Deos que tão depressa Estes laços se rompão, Por que nos peze o mundo, e os seus enganos Mais sem custo deixemos: Sem custo assim a brisa arrasta a planta, Que jaz solta na terra!
* * * * *
FLÔR DE BELLEZA.
Não vejas!... se a vires...--Eu sei porque o digo: Tu morres de amor. MACEDO.
Se fosse rainha aquella Em cuja fronte singela, Como em tela delicada Luz da belleza o condão, Fôras rainha adorada; Mas rainha seductora, Que exige preitos n’uma hora E n’outra hora adoração.
Fôras rainha! e ditosos Teus vassallos extremosos, Que a renderem-te seus preitos Beijárão-te a nivea mão. Pedes amor e respeitos! Quem não ama a formosura, Quem não respeita a candura D’um sincero coração?
Mas antes que nos curvemos Ante a belleza que vemos, Tua angelica bondade Conquista a nossa affeição: Não es mulher, mas deidade, Uma fada seductora, Que nos pede amor agora, Logo mais--adoração.
Quando pois, cheia de graças, Entre a turba alegre passas, Entre a turba sequiosa De beijar-te a nivea mão; Dizem uns: quanto é formosa! Eu porêm, sei que es mais bella Nos dotes da alma singela, Nas prendas do coração.
Passa rapida a belleza, Como flôr que a natureza Cria em jardim melindroso, Ou n’um agreste torrão: Passa como um som queixoso, Como felizes instantes, Como as juras dos amantes, Como extremos da paixão.
Mas d’alma a vida é mais fina, Exhala essencia divina, Que avigora e fortifica O dorido coração; Morto o corpo, ainda fica, Como em rosal arrancado, Leve aroma derramado, Dos espaços na extensão.
* * * * *
O ANJO DA HARMONIA.
Respira tanta doçura O teu canto, que por certo Abranda a penha mais dura. BOCAGE.
Revela tanto amor, tão branda sôa A tua doce voz canora e pura, Que o homem de a escutar sente no peito Infiltrar-se-lhe um raio de ventura.
Solta-se a alma das prisões terrenas, O mundo, a vida, o soffrimento esquece, E embalada n’um ether deleitoso, Como Alcyon nas aguas, adormece!
Da noite a placidez é menos grata A quem sósinho e taciturno vela, Quando, perdido n’outros mundos, nota A meiga luz de fugitiva estrella.
Sensações menos doces, menos vagas, Desperta o barco leve, que se avista Ao pôr do sol, na extrema do horisonte, Quando n’um mar de luz nos foge á vista.
Das aves o cantar é menos fresco, É menos triste a fonte que serpeia, Menos queixoso o mar, que enternecido, Beija na praia a scintillante areia.
Vagas na terra, suspiroso archanjo, Derramando torrentes de harmonia Sobre as chagas mortaes,--balsamo sancto Que as mais profundas magoas alivia.
Vagas na terra, merencoria e bella; Mas quando deste mundo ao céo tornares, Juntarás teus ternissimos accentos Aos puros sons dos mysticos altares.
E os anjos na mansão das harmonias, Encostados ás harpas diamantinas, Folgarão de te ouvir celestes carmes Deduzidos em notas peregrinas.
E dirão:--Nunca ás plagas do infinito Subio mais terna voz, mais fresca e pura! Se o corpo é de mulher, sua alma é vaso, Onde o incenso de Deos se afina e apura.
* * * * *
A HISTORIA.
The flow and ebb of each recurring age. BYRON.
Triste licção de experiencia deixão Os evos no passar, e os mesmos actos Renovados sem fim por muitos povos, Sob nomes diversos se encadeião: Aqui, além, agora ou no passado, Amor, dedicação, virtude e gloria, Baixeza, crime, infamia se repetem, Quer gravados no socco de uma estatua, Quer em vil pelourinho memorados. Eis a historia!--rainha veneranda, Trajando agora sedas e velludos, Depois vestindo um sacco despresivel, D’immunda cinza apolvilhada a fronte. Se as virtudes do pobre não tem preço, Tambem dos vicios seus a nodoa exigua Não conspurca as nações; mas ai dos grandes, Que trilhão senda errada, a cujo termo Se levanta a barreira do sepulchro, Onde se quebra a adulação sem força. Se virtuoso, as gerações passando As cinzas lhe beijarão; se malvado, Cospem-lhe affrontas na vaidosa campa, Jámais de amigas lagrimas molhada. E qual do Egypto nos festins funereos, Maldizem bons e máos sua memoria, Lançando á face da real mumia Dos crimes seus a lacrymosa historia. Talvez, porêm, um infortunio grande, Um exemplo sublime de virtude, Cobre dourada pagina, que aos olhos Pranto consolador sem custo arranca.
Eis a historia! um espelho do passado, Folhas do livro eterno desdobradas Aos olhos dos mortaes;--aqui sem mancha, Além golfeja sangue e súa crimes. Tal foi, tal é: retrato desbotado, Onde se mira a geração que passa, Sem côr, sem vida,--e ao mesmo tempo espelho, Que ha de ser nova copia á gente nova, Como os annos aos annos se succedão. Ondas de mar sereno ou tormentoso, As mesmas na apparencia, que se quebrão Sobre as d’areia fluctuantes praias.
* * * * *
A CONCHA E A VIRGEM.
Linda concha que passava, Boiando por sobre o mar, Junto a uma rocha, onde estava Triste donzella a pensar;
Perguntou-lhe:--Virgem bella, Que faces no teu scismar? --E tu, pergunta a donzella, Que fazes no teu vagar?
Responde a concha:--Formada Por estas aguas do mar, Sou pelas aguas levada, Nem sei onde vou parar!
Responde a virgem sentida, Que estava triste a pensar: --Eu tambem vago na vida, Como tu vagas no mar!
--Vais d’uma a outra das vagas, Eu d’um a outro scismar; Tu indolente divagas, Eu soffro triste a cantar.
--Vais onde te leva a sorte, Eu, onde me leva Deos: Buscas a vida,--eu a morte; Buscas a terra,--eu os céos!
* * * * *
SEI AMAR.
Amor amore. _Proverbio._
Sei amar com paixão ardente e fida, Como o nauta ama a terra, como o cego A luz do sol, como o ditoso a vida.
Sim, sei amar; porêm do immenso pégo D’uma existencia misera e cançada, Quero uma hora, um instante de socego.
Dera a vida a uma alma apaixonada, A um peito de mulher que me entendesse, Onde eu pousasse a fronte acabrunhada.
Porêm, que fosse minha, e que eu soubesse Que os labios que beijei são meus somente, Nem pensa em outro, nem de mim se esquece.
Nem vai de prompto derramar demente N’outros ouvidos a palavra, o accento, Que em extasis de amor criei fervente.
Nem corre o seu volatil pensamento, Quando fallo, a pensar n’outros amores, N’outra voz, n’outros sons, n’outro momento.
Demais, acostumado a teus rigores, Não me queixo, bem vês, mas despedaço A prisão vil, embora occulta em flores.
Se entro furtivo, onde outro mais de espaço Como senhor campeia--ao mais querido Cede o ingresso, ao mais ditoso o passo.
Não me contenta um coração partido, Um só amor que a dous pertence,--um peito, Que bate por dous homens, fementido.
Se eu unico não sou,--vil, não aceito Ser segundo em amor,--inteiro é nobre, Vale um throno;--partido, é dom tão pobre, Qu’eu pobre, como sou, de altivo engeito.
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AMANHÃ.
Amanhã!--é o sol que desponta, É a aurora de roseo fulgor, É a pomba que passa e que estampa Leve sombra de um lago na flôr.
Amanhã!--é a folha orvalhada, É a rola a carpir-se de dôr, É da brisa o suspiro,--é das aves Ledo canto,--é da fonte o frescor.
Amanhã!--são acasos da sorte; O queixume, o prazer, o amor, O triumpho que a vida nos doura, Ou a morte de baço pallor.
Amanhã!--é o vento que ruge, A procella d’horrendo fragor, É a vida no peito mirrada, Mal soltando um alento de dôr.
Amanhã!--é a folha pendida, É a fonte sem meigo frescor, São as aves sem canto, são bosques Já sem folhas, e o sol sem calor.
Amanhã!--são acasos da sorte! É a vida no seu amargor, Amanhã!--o triumpho, ou a morte; Amanhã!--o prazer, ou a dôr!
Amanhã!--o que val’, se hoje existes! Folga e ri de prazer e de amor; Hoje o dia nos cabe e nos toca, De amanhã Deos sómente é Senhor!
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POR UM AI.
Se me queres ver rendido, De joelhos, a teus pés, Por um olhar que me deites, Por um só ai que me dês;
Se queres ver o meu peito Rugindo como um vulcão, Estourar, arder em chammas, Ferver de amor e paixão;
Se me queres ver sugeito, Curvado e preso á tua lei, Mais humilde que um escravo, Mais orgulhoso que um rei;
Meus olhos sobre os teus olhos, Meu coração a teus pés; Por um olhar que me deites, Por um só ai que me dês:
Oiça, feliz, dos teus labios Esta só palavra--amor!-- Estrella cortando os ares, Abelha sobre uma flôr.
Então verás dos meus olhos, Que o pezar me não cegou, Rebentarem de alegria Prantos, que a dôr estancou;
Então verás o meu peito Como outra vez se incendia; Era a folha verde e fresca, Onde o sol se reflectia!
Murcha e triste pende agora; Cahiu, jaz solta, está só: Exposta ao fogo, arde em chammas, --Deixai-a, desfaz-se em pó!
Hei de sentir outra vida, Outra vez meu coração Escutarei palpitando De amor, de fogo e paixão.
Lascado tronco sem graça, Tal fui, tal me ves agora! Mas venha o orvalho celeste, Venha o bafejo da aurora;
Venha um raio de alegria Dar-lhe ás raizes calor; Revive de novo, e brota Folhas, galhos e verdor.
Do cimo erguido e copado Outra vez se dependurão Mil flores,--alli mil aves Nos seus gorgeios se apurão.
Não quero palavras falsas, Não quero um olhar que minta, Nenhum suspiro fingido, Nem voz que o peito não sinta.
Basta-me um gesto, um aceno, Uma só prova,--e verás Minha alma, presa em teus labios, Como de amor se desfaz!
Ver-me-has rendido e sugeito, Captivo e preso á tua lei, Mais humilde que um escravo, Mais orgulhoso que um rei!
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PROTESTO.
Imitação de uma poesia Javaneza.
Ainda quando os homens te odiassem, E anath’ma contra ti bradasse o mundo, Por ti sentira amor, te amára sempre, Te amára eternamente.
Este affecto jámais ha de alterar-se; Embora gemeos sóes ardão no espaço, Ou gemeas noites, em cegueira eterna, Me roubem o prazer de ver teus olhos.
Entranha-te na terra, hei de afundar-me; Passa ao travez do fogo, irei comtigo; Aos céos remonta, hei de seguir-te sempre, Ver-me-has sempre a teu lado.
De ti não póde a força desprender-me, Nem separar-me o fado. Em ti só vivo; E quem dos dias teus souber o termo, Que a vida me deixou tambem conheça.
Quando nas azas da esperança corro, Onde me acenas, onde amor me aguarda, Parece-me que vôo aos ledos campos, Onde a esperança mora.
Não ha que possa comparar-se aos extasis, Que tanto ao vivo meu amor revelão; Um gesto, um som dos labios teus mimosos Mil vezes na minha alma se repete.
Quer irritada contra mim te mostres, Quer do teu seio irosa me repillas, Teu rosto na minha alma se retrata, E eu te amo sempre!
Quer durma, quer descance, ou vele ou soffra, Em tudo quanto sinto, em quanto vejo, Risonha tua imagem me apparece, E eu julgo sempre que te fallo e escuto.
Seja eu longe da patria infindas legoas, A distancia de um mundo entre nós corra, Em quanto além divago, preso fica Meu coração comtigo.
Se pois souberes que os meus dias findão, Não creias que o destino inexoravel M’os corta--antes me tem, antes me julga Morto por ti de amores!
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FADARIO.
Procura o íman sempre Do pólo a firme estrella, De viva luz o insecto Se deixa embellezar; E a nave contrastada Das furias da procella, Procura amigo porto, No qual possa ancorar.
O íman sou constante, A nave combatida, O insecto encandeado Com fulgido clarão; E tu--a minha estrella, A luz da minha vida, O porto que me acena Por entre a cerração.
Assim, por desgostar-me, Severo no semblante, No olhar, na voz--debalde Me opprime o teu rigor; Se fujo dos teus olhos, Se mostro-me inconstante, Na ausencia e no desterro Me vai crescendo o amor!
Assim o insecto volta Á luz que o já queimára, E o íman na tormenta Procura o norte seu; Assim a nave rota, Que o vento contrastára, Entrando o porto, esquece Que males já soffreu.
Debalde, pois, tua alma, Que a minha dôr encherga, Se mostra aspera e dura Á voz do meu penar; Aquelle verde ramo, Que facilmente verga, Resiste ao peso, emquanto Não torna ao seu lugar.
Se, pois, te irrita e cança De o ver revel comtigo, Do tronco seu virente Separa-o de uma vez: Mais qu’elle venturoso Me julgo, se consigo Morrer vendo os teus olhos, Cahir junto a teus pés.
Mas, inda assim, não creias, Se finda o meu tormento, Que nem lembrança minha Terás de conservar: A nave, que não toca No porto a salvamento, Talvez os rotos mastros Atira á beira-mar.
Assim quando jazendo Me achar na campa fria, Talvez tenhas remorsos, Da tua ingratidão; Talvez que por mim sintas Alguma sympathia; Que em lagrimas desfeita Me dês amor então.
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O ASSASSINO.
Pero una sola lágrima, un gemido Sobre sus restos á ofrecer no van, Que es sudario d’infames el olvido... Bien con su nombre en su sepulcro están! ZORRILLA.
Eil-o! seu rosto pallido se encova; Incerto, mais que os vôos dum morcego, Seu andar, ora lento, ora apressado, Profunda agitação revela aos olhos.
Crespos os cenhos, enrugada a fronte, Simelha luz de tocha mortuaria A luz que os olhos seus despedem torvos. Ha momentos em que seo rosto fero De tal arte s’enruga e se transtorna, Que os seus proprios amigos o fugírão E a propria mãe teméra unil-o ao seio! Quando os labios descerra, só murmura Frases, cujo sentido não se alcança, Ou blasfemias a Deos, que o soffre em vida! O que amou n’outro tempo, agora odeia; Despreza o que estimou, evita, foge Quanto afanoso procurava outr’ora: Receia a luz do sol, da noite as trevas, A voz do crime, da innocencia o grito!
A cholera de Deos cahio tremenda Sobre o seu peito, e o coração lhe opprime, De cuja interna chaga em jorros salta O sangue e a podridão: horrendo e fero, A victima das furias do remorso, Terrivel e cobarde, e ao mesmo tempo Rebelde contra a mão, que o vexa e pune, Em quanto a Deos maldiz, blasfema, irrita, D’uma voz, d’uma sombra se amedronta.
Não póde supportar seus pensamentos A sós comsigo, e aborrecendo os homens, De os ver e de os não ver soffre martyrios. Na cidade, suspeita esposa, amigos, A mãe e os filhos;--um terror, um pasmo, Cuja causa recondita se ignora, Na voz, no rosto e gesto o denuncião Como escravo do crime ou da miseria.
No ermo a propria voz o sobresalta! O som dos passos, do seu corpo a sombra, Das fontes o correr por entre as pedras, Da brisa o suspirar por entre as folhas, Quanto vê, quanto escuta o intimida. Minaz lhe brada a natureza inteira, Soluça um nome, que lhe erriça a coma E o frio do terror lh’immerge n’alma.
O mar nas ondas crespas, que se enrolão, Batidas pelo açoite da procella, Troveja o mesmo nome; as vagas dizem-no, Quando passão, cuspindo-lhe o semblante; E Deos, o proprio Deos no espaço o grava Nos fuzis que os relampagos centelhão.
Tem pavor, quando sonha e quando vela. Deixando o leito em seu suor banhado, No silencio da noite--á horas mortas, Levanta-se medonho á voz do crime! Nas mãos convulsas um punhal aperta E a lamina buida e os olhos torvos Agoureiro clarão despedem juntos. Soltando roucos sons com voz sumida, Apalpa cauteloso as densas trevas, E vai ... caminha ... attende ... de repente Apunhala um phantasma!--solta um grito, Larga o punhal convulso e arrepiado! N’um ferrete de sangue lê seu fado, Um ferrete, que a dôr desfaz nunca, Nem lava o pranto, nem consome o tempo. Miseravel, provando o fel da morte, Ante o passo medonho se horrorisa; Odeia o mundo que fugir não póde, Regeita a religião que o não consola, Odeia e teme a Deos,--teme a justiça De quem na fronte vil do fratricida Nodoa eterna gravou do crime infando.
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A UNS ANNOS.
14--Janeiro.
No segredo da larva delicada A borboleta mora, Antes que veja a luz, que estenda as azas, Que surja fóra!
A flôr, antes de abrir-se, se recata; No botão se resume, Antes que mostre o colorido esmalte, Que espalhe o seu perfume.
E a flôr e a borboleta, após a aurora Breve--da curta vida, Encontrão nas manhãs da primavera A luz do sol querida.
De graças cheia, a delicada virgem Da vida no verdor, Semelha a borboleta melindrosa, Semelha a linda flôr.
Tudo se alegra e ri em torno della, Tudo respira amor, Que é a virgem formosa semelhante Á borboleta e á flôr.
Mas para estas o sol breve se esconde, Passão prestes os dias; Em quanto a cada sol e nova quadra Tu novas graças crias!
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QUANDO NAS HORAS.
And dost thou ask, what secret woe I bear, corroding joy and youth? And wilt thou vainly seek to know A pang e’en thou must fail to soothe? BYRON.