Chapter 129 of 141 · 264 words · ~1 min read

I.

Quando nas horas que comtigo passo, Do amor mais casto, do mais doce enlevo. Sentindo um raio d’esperança amiga, Que as densas trevas da minha alma aclara;

Teus meigos olhos sobre os meus se fitão. Sorvo o perfume que tua alma exhala, Gozo o sorriso que os teus labios vertem E as doces notas que o prazer m’entranhão:

Tu me perguntas por que um riso amargo, Funebre e triste me descora os labios; Por que uma nuvem de pezares gravida Tolda o meu rosto;

Por que um suspiro de abafada angustia, Um ai do peito, que exhalar não ouso, O meigo encanto dos teus sonhos quebra N’um breve instante!

Raio de amor, que sobre mim resplendes, Ou sol que bates n’um profundo abysmo, E a verde-negra superficie tinges De côr chumbada com reflexos d’oiro;

Se vês luzente a superficie amiga, E á luz que espalhas aclarar-se o abysmo, Sol bemfazejo, que te importão fezes, Se lá no fundo adormecidas jazem?

Talvez se as viras, encobrindo os olhos, De horror fugindo ao temeroso aspecto, Os brandos lumes, d’onde amor distillas Breve apagáras.

Não me perguntes por que soffro triste, Por que da morte o negro espectro invoco, Por que, cansado desta vida, almejo A paz dos tumulos.

Nem ver procures a cratera hiante Do peito meu, qu’inda fumega em cinzas, Do peito meu, onde crueis travárão Pleitos, não crimes, mas paixões que abrasão.

Dá que nas horas que comtigo passo Do amor mais casto e do mais doce enlevo, Durma o passado e do porvir m’esqueça, E o meu presente de te amar se ameigue.