Chapter 15 of 141 · 2150 words · ~11 min read

IV.

Dos muros ao travez meos olhos virão Soberba roda de convivas,--todos Velludos, sedas, e custosas galas Trajavão senhoris.--Reinava o jogo Aváro e grave, leda e viva a dança Em vortices girava, a orchestra doce Cantava occulta; condensados, bastos, Em redor do banquete estavão muitos. A mendiga alli estava,--não trajando Sujos farrapos, mas delgadas telas. Chovião brindes e canções e vivas Á Deosa airosa do banquete; todos Um volver dos seos olhos, um sorriso, Uma voz de ternura, um mimo, um gesto Cubiçavão rivaes;--e alli com ella, Como um raio do sol por entre as nuvens Lá na quadra hibernal penetra a custo Quasi sem vida, sem calor, sem força, Menos brilhante vi seo anjo bello. Nos curtos labios da feliz mendiga Passava rapido um sorriso ás vezes; Outras chorava, no volver do rosto, Na taça do prazer sorvendo o pranto. Encontradas paixões sentia o anjo: Parecia chorar co’o seo sorriso, Parecia sorrir co’o choro della.

* * * * *

A ESCRAVA.

O bien qu’aucun bien ne peut rendre, Patrie, doux nom que l’exil fait comprendre! MARINO FALIERO.

Oh doze paiz de Congo, Doces terras d’além mar! Oh! dias de sol formoso! Oh! noites d’almo luar!

Desertos de branca areia De vasta, immensa extensão, Onde livre corre a mente, Livre bate o coração!

Onde a leda caravana Rasga o caminho passando, Onde bem longe se escuta As vozes que vão cantando!

Onde longe inda se avista O turbante musulmano, O Yatagan recurvado, Preso a cinta do Africano!

Onde o sol na areia ardente Se espelha, como mar; Oh! doces terras de Congo, Doces terras d’além mar!

* * * * *

Quando a noite sobre a terra Desenrolava o seo véo, Quando siquer uma estrella Não se pintava no céo;

Quando só se ouvia o sopro De mansa brisa fagueira, Eu o aguardava--sentada Debaixo da bananeira.

Um rochedo ao pé se erguia, D’elle á base uma corrente Despenhada sobre pedras, Murmurava docemente.

E elle ás vezes me dizia: --Minha Alsgá, não tenhas medo; Vem commigo, vem sentar-te Sobre o cimo do rochedo.

E eu respondia animosa: --Irei comtigo, onde fores!-- E tremendo e palpitando Me cingia aos meos amores.

Elle depois me tornava Sobre o rochedo--sorrindo: --As agoas d’esta corrente Não vês como vão fugindo?

Tão depressa corre a vida, Minha Alsgá; depois morrer Só nos resta!...--Pois a vida Seja instantes de prazer.

Os olhos em tomo volves Espantados--Ah! tão bem Arfa o teo peito anciado!... Acaso temes alguem?

Não receis de ser vista, Tudo agora jaz dormente; Minha voz mesmo se perde No fragor d’esta corrente.

Minha Alsgá, porque estremeces Porque me foges assim? Não te partas, não me fujas, Que a vida me foge a mim!

Outro beijo acaso temes, Expressão de amor ardente? Quem o ouvio?--o som perdeo-se No fragor d’esta corrente.

Assim praticando amigos A aurora nos vinha achar! Oh! doces terras de Congo, Doces terras d’além mar!

* * * * *

Do rispido Senhor a voz irada, Rabida sôa, Sem o pranto enchugar a triste escrava Pavida vôa.

Mas era em mora por scismar na terra, Onde nascera, Onde vivera tão ditosa, e onde Morrer devera!

Soffreo tormentos, porque tinha um peito, Qu’inda sentia; Misera escrava! no soffrer cruento, Congo! dizia.

* * * * *

AO DR. JOÃO DUARTE LISBOA SERRA.

23 de Agosto.

Mais um pungir de acerrima saudade, Mais um canto de lagrimas ardentes, Oh! minha Harpa,--oh! minha Harpa desditosa.

Escuta, ó meu amigo: da minha alma Foi uma lyra outr’ora o instrumento; Cantava n’ella amor, prazer, venturas, Até que um dia a morte inexoravel Triste pranto de irmão veio arrancar-te! As lagrimas dos olhos me cahirão, E a minha lyra emmudeceo de magoa! Então aventei eu que a vida inteira Do bardo, era um perenne sacerdocio De lagrimas e dôr;--tomei uma Harpa: Na corda da afflicção gemeo minha alma, Foi meo primeiro canto um epicedio; Minha alma baptizou-se em pranto amargo, Na fragoa do soffrer purificou-se! Lancei depois meos olhos sobre o mundo, Cantor do soffrimento e da amargura; E vi que a dôr aos homens circumdava, Como em roda da terra o mar se estreita; Que apenas desfructamos,--miserandos! Desbotado prazer entre mil dôres, --Uma rosa entre espinhos aguçados, Um ramo entre mil vagas combatido.

Voltou-se então p’ra Deos o meo esp’rito, E a minha voz queixosa perguntou-lhe: --Senhor, porque do nada me tiraste, Ou porque a tua voz omnipotente Não fez seccar da minha vida a seve, Quando eu era principio e feto apenas?

Outra voz respondeo-me dentro d’alma: --Ardão teos dias como o feno,--ou durem Como o fogo de tocha resinosa, --Como rosa em jardim sejão brilhantes, Ou baços como o cardo montesinho, Não deixes de cantar, ó triste bardo.--

E as cordas da minha harpa--da primeira Á extrema--da maior á mais pequena, Nas azas do tufão--entre perfumes, Um cantico de amores exaltárão Ao throno do Senhor;--e eu disse ás turbas: --Elle nos faz gemer porque nos ama; Vem o perdão nas lagrimas contritas, Nas azas do soffrer desce a clemencia; Sobre quem chora mais elle mais vela! Seo amor divinal é como a lampada, Na abobada d’um templo pendurada, Mais luz filtrando em mais opácas trevas.

Eu o conheço:--o cantico do bardo É balsamo ao que morre,--é lenitivo, Mas doloroso, mas funereo e triste A quem lhe carpe infausto a morte crúa. Mas quando a alma do justo, espedaçando O envolucre de lodo, aos céos remonta, Como estrada de luz correndo os astros, Seguindo o som dos canticos dos anjos Que na presença do Senhor se elevão; Choro ... tão bem Jesus chorou a Lazaro! Mas na excelsa visão que se me antolha Bebo consolações,--minha alma anceia A hora em que tão bem ha de asilar-se No seio immenso do perdão do Eterno.

Chora amigo; porém quando sentires O pranto nos teos olhos condensar-se, Que já não póde mais banhar-te as faces, Ergue os olhos ao céo, onde a luz móra, Onde o orvalho se cria, onde parece Que a timida esperança nasce e habita. E se eu--feliz!--poder inda algum dia Ferir por teo respeito na minha harpa A leda corda onde o prazer palpita, A corda do prazer que ainda inteira, Que virgem de emoção inda conservo, Suspenderei minha harpa d’algum tronco Em off’renda á fortuna;--alli sosinha, Tangida pelo sopro só do vento, Ha de mysterios conversar co’a noite, De acorde extreme perfumando as brisas; Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros Que não ha de cantar a desventura, Tendo cantos gentis vibrado n’ella.

* * * * *

O DESTERRO DE UM POBRE VELHO.

Et dulces moriens reminiscitur Argos. VIRG.

O! schwer ist’s, in der Fremde sterben unbeweint! SCHILLER.

A aurora vem despontando, Não tarda o sol a raiar; Cantão aves,--a natura Já começa a respirar.

Bem mansa na branca areia Onda queixosa murmura, Bem mansa aragem fagueira Entre a folhagem susurra.

É hora cheia de encantos, É hora cheia de amor; A relva brilha enfeitada, Mais fresca se mostra a flôr.

Esbelta joga a fragata, Como um corsel a nitrir; Suspensa a amarra tem presa, Suspensa, que vai partir.

Em demanda da fragata, Leve barco vem vogando; Nelle um velho cujas faces Mudo choro está cortando.

Quem era o velho tão nobre, Que chorava, Por assim deixar seos lares, Que deixava?

«Ancião, porque te ausentas? Corres tu traz de ventura? Louco! a morte já vem perto, Tens aberta a sepultura.

«Louco velho, já não sentes Bater frouxo o coração? Oh! que o sente!--É lei d’exilio A que o leva em tal sazão!

«Não ver mais a cara patria, Não ver mais o que deixava, Não ver nem filhos, nem filhas, Nem o casal, que habitava!...

«Oh! que é má pena de morte, A pena de proscripção; Traz dôres que martyrisão, Negra dôr de coração!

«Pobre velho!--longe, longe Vás sustento mendigar; Tens de soffrer novas dôres, Novos males que penar.

«Não t’ha de valer a idade, Nem a dôr tamanha e nobre; Tens de tragar vis affrontas, --Insultos que soffre o pobre!

«Nada acharás no degredo, Que falle dos filhos teos; Ninguem sente a dôr do pobre... Só te fica a mão de Deos.

«O sol, que além vês raiando Entre nuvens de carmim, N’outros climas, n’outras terras Não verás raiar assim.

«Não verás a rocha erguida, Onde t’ias assentar, Nem o som bem conhecido Do teo sino has de escutar.

«Ha de cahir sobre as ondas O pranto do teo soffrer, E n’esse abysmo salgado, Salgado, se ha de perder.»

Já chegou junto á fragata, Já na escada se apoiou, Já com voz intercortada Ultimo adeos soluçou.

Canta o nauta, e sólta as velas Ao vento que o vai guiar; E a fragata mui veleira Vai fugindo sobre o mar.

E o velho sempre em silencio A calva testa dobrou, E pranto mais abundante O rosto senil cortou.

Inda se vê branca a vela Do navio, que partio; Mais além--inda se avista! Mais além--já se sumio!

* * * * *

O ORGULHOSO.

Eu o vi!--tremendo era no gesto, Terrivel seo olhar; E o senho carregado pretendia O globo dominar.

Tremendo era na voz, quando no peito Fervia-lhe o rancor! E aos demais homens, como um cedro á relva, Se cria sup’rior.

E o pobre agricultor, junto a seus filhos, Dentro do humilde lar, Quizera, antes que os d’elle, ver de um Tigre Os olhos fusilar:

Que a um filho seo talvez quizera o nobre Para um Executor; Ou para o leito infesto alguma filha Do triste agricultor.

Quem ousaria resistir-lhe?--Apenas Algum pobre ancião Já sobre o seo sepulchro, desejando A morte e a salvação.

* * * * *

Alguns dias apenas decorrêrão; E eis que elle se sumio! E a lagem dos sepulchros fria e muda Sobre elle já cahio.

E o barbaro tropel dos que o servião Exulta com seo fim! E a turba applaude; e ninguem chora a morte De homem tão ruim.

* * * * *

O COMETA.

AO SR. FRANCISCO SUTERO DOS REIS.

Non est potestas, quae comparetur ei qui factus est ut nullum timeret. JOB.

Eis nos céos rutilando igneo cometa! A immensa cabelleira o espaço alastra, E o nucleo, como um sol tingido em sangue, Alvacento luzir vérte agoireiro Sobre a pavida terra.

Poderosos do mundo, grandes, povo, Dos labios removei a taça ingente, Que em vossas festas gyra; eis que rutila O sanguineo cometa em céos infindos!... Pobres mortaes,--sois vermes!

O Senhor o formou terrivel, grande; Como indocil corsel que morde o freio, Retinha-o só a mão do Omnipotente. Alfim lhe disse:--Vai, Senhor dos Mundos, Senhor do espaço infindo.

E qual louco temido, ardendo em furia, Que ao vento solta a coma desgrenhada, E vai, nescio de si, livre de ferros, De encontro ás duras rochas,--tal progrede O cometa incansavel.

Se na marcha veloz encontra um mundo, O mundo em mil pedaços se converte; Mil centelhas de luz brilhão no espaço A esmo, como um tronco pelas vagas Infrenes combatido.

Se junto d’outro mundo acaso passa, Comsigo o arrastra e leva transformado; A cauda portentosa o enlaça e prende, E a astro vai com elle, como argueiro Em turbilhão levado.

Como Leviathan perturba os mares, Elle perturba o espaço;--como a lava, Elle marcha incessante e sempre;--eterno, Marcou-lhe largo gyro a lei que o rege, --As vezes o infinito.

Elle carece então da eternidade! E aos homens diz--e magestoso e grande Que jamais o verão; e passa, e longe Se entranha em céos sem fim, como se perde Um barco no horisonte!

* * * * *

O OIRO.

Oiro,--poder, encanto ou maravilha Da nossa idade,--regedor da terra, Que dás honra e valor, virtude e força, Que tens offertas, oblações e altares,-- Embora teo louvor cante na lyra Vendido Menestrel que pôde insano Do grande á porta renegar seo genio! Outro, sim, que não eu.--Bardo sem nome, Com pouco vivo;--sobre a terra, á noite, Meo corpo lanço, descançando a fronte N’um tronco ou pedra ou mal nascido arbusto. Sou mais que um rei co’o meo docel de nuvens Que tem gravados scintillantes mundos! Com a vista no céo percorro os astros, Vagueia a minha mente além das nuvens, Vagueia o meo pensar--alto, arrojado Além de quanto o olhar nos céos alcança.

Então do meo Senhor me calão n’alma D’amor ardente enlevos indiziveis; Se tento ás gentes redizer seo nome, Queimadoras palavras se atropellão Nos meos labios;--prophetica harmonia Meo peito anceia, e em borbotões se expande. Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes Tens prodigios, teo poder immenso: O pae ao filho o diz, um sec’lo a outro, A terra ao céo, o tempo á eternidade!

Do mundo as illusões, vaidade, engano, Da vida a mesquinhez--prazer ou pranto-- Tudo esse nome arrastra, prostra e some; Como aos raios do sol desfeito o gelo, Que em ondas corre no pendor do monte, Precipite e ruidoso,--arbustos, troncos Comsigo no passar rompidos leva.

* * * * *

A UM MENINO.

OFFERECIDA Á EX^{ma} S^{ra} D. M. L. L. V.