Chapter 100 of 141 · 14064 words · ~70 min read

XVIII.

Lerás porêm algum dia Meos versos, d’alma arrancados, D’amargo pranto banhados, Com sangue escriptos;--e então Confio que te commovas, Que a minha dôr te apiade, Que chores, não de saudade, Nem de amor,--de compaixão.

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O SOMNO.

Nas horas da noite, se junto a meo leito Houveres acaso, meo bem, de chegar, Verás de repente que aspecto risonho Que toma o meo sonho, Se o vens bafejar!

O anjo, que ao somno preside tranquillo, Ao anjo da terra não ceda o logar; Mas deixe-o amoroso chegar-se ao meo leito, Unir-me a seo peito, D’amor offegar.

As notas que exhalão as harpas celestes, Os gozos, que os anjos só podem gozar, Talvez tambem frúa, se ao meo peito unida T’encontro, ó querida, No meo acordar!

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SE EU FOSSE QUERIDO!

Se eu fosse querido d’um rosto formoso, Se um peito extremoso--podesse encontrar, E uns labios macios, que expirão amores E abrandão as dores--de alheio penar;

A tantos encantos minha alma rendida, Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar: Constante a seo lado, seos sonhos divinos Aos sons dos meos hymnos--quizera embalar.

Depois, quando a morte viesse impiedosa Da amante extremosa--meos dias privar, De funda saudade minha alma rendida Votara-lhe a vida--que Deos me quiz dar.

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A FLÔR DO AMOR.

Já lento o passo, no cahir da tarde, Lá nos desertos d’abrasada areia, Que o vento agita, porêm não recreia, Da caravana o conductor parou. Armão-se ápressa tendas alvejantes, Rumina placido o frugal camêlo; Porêm a nuvem d’arabes errantes Se achega á presa, que de longe olhou.

E já, tomada a refeição nocturna, Junto a fogueira, que derrama vida, Descanção todos da penosa lida Á voz canora, que o cantor alçou! Confuso o ouvido um borborinho alcança, As armas toma o arabe prudente; Mas logo pensa, regeitando a lança: «Foi o grunhido que o chacal soltou.»

Ouvidos todo e curioso enlevo, Toma de novo a retomar seo posto; Pela fogueira alumiado o rosto, Bebendo as vozes que o cantor soltou; Simelha a terra, quando aberta em fendas Da noite o orvalho sequiosa espera; E o corsel arabe encostado ás tendas Os sons lhe escuta, e de os ouvir folgou.

«Algures cresce (o trovador cantava) Sempre fresca e virente e sempre bella, Por influxo e poder de maga estrella, Mimosa, pura e delicada flôr! Jazendo em sitio escuso e solitario, Esforços é mister p’ra conhecel-a, Que diz a forte lei do seo fadario Que a não descubra acaso o viajor.

«Alva do albor dos lirios odorosos, Tem a modestia da violeta esquiva, E o prompto retrahir da sensitiva, Que parece vestir-se de pudor! Assim, á luz da cambiante aurora, Mudando um pouco a resplendente alvura, De uns toques de carmim s’esmalta e córa A graciosa e pudibunda flôr.

«Faz-se mais puro o ar, mais brando o clima, Onde cresce; amenisão-se os logares, Tornão se menos agros os pezares E menos viva, e quasi nulla a dôr; Fresca e branda alcatifa o chão matisa, Com doce murmurio as aguas correm, E o leve sopro do correr da brisa Volupia embebe em magico frescor!

«Feliz aquelle que a encontrou na vida, Que onde ella nasce timida e fagueira Não s’ennovela a mó d’atra poeira, Tangida pelo súmiu’ abrasador! Alli sorri-se oasis venturoso, Qu’entre deleites o viver matisa, E ao que vai triste, afflicto e sem repouso Chama a descanço do comprido error!

«Feliz e mais que se, perdido, achára Conforto e auxilio no kathá, seo guia, Que o leva a fonte perennal e fria Onde se apaga o sitibundo ardor. Tão feliz, qual talvez se o precedesse Nos desertos a benção do propheta, Que por fanal nocturno lhe accendesse Maga estrella de limpido fulgor.

«Ai! porêm do que a vê, e a não conhece, Do que a suspira em vão, e a em vão procura, Ou que achando-a, desiste da ventura Por não entrar no oasis seductor. Essa flôr descoberta por acerto Nunca mais a verás! colhe, insensato, Colhe abrolhos da vida no deserto; Pois despresaste a que produz o amor!»

Assim cantava o trovador; e todos Ouvem-no com prazer de dôr travado, Que mais do que um talvez terá deixado Atraz de si a pudibunda flôr! No emtanto a nuvem d’arabes errantes Chega-se á presa, que avistou de longe; E dos corseis, que alentão offegantes, Precede a marcha turbido pavor!

E, nado o sol, aquelle que passava Pelos desertos d’abrasada areia, Que o rubro sangue de cruor rocheia, A um lado o rosto, pallido, voltou! Ninguem as mortes lastimaveis chora, Ninguem recolhe os restos insepultos, E o mesmo orvalho, que goteja a aurora, Sem borrifal-os, no areial ficou!

Quem saberá do seo destino agora? Ninguem! Somente em climas apartados Miseranda mulher lastima os fados De filho ou esposo, que jamais tornou! Talvez porêm, traz de montões d’areia, Nobre corsel sem cavalleiro assoma, E alonga a vista, de pezares cheia, Té onde a vida seo senhor deixou!

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A SUA VOZ.

Por que ficasse a vida Por o mundo em pedaços repartida. CAMÕES CANÇ. X.

Ouvi-a! A sua voz me despertava Tudo quanto de bom conservo n’alma. Retratado o pudor no rosto, E um suave dizer, um timbre doce De voz, uma piedade extreme e sancta, Que as mais profundas chagas animava, D’ambrozia e de mel lhe ungia os labios.

Ouvi-a! A sua voz era mais branda, Mais impressiva que o cantar das aves! A aragem qu’entre flores se deslisa E mal remeche a timida folhagem, A veia de chrystal que triste sôa, O saudoso arrulhar de mansas pombas, As proprias notas d’um cantar longinquo Ou de instrumento a conversar co’a noite, Menos que a sua voz impressionavão!

Menos que a sua voz!--Os dois mais fortes, Os dois mais puros sentimentos nossos --A saudade e o amor,--as mais profundas Das merencorias solidões da terra --As florestas e o mar,--um scismar vago, Um devaneio, uns extasis sem termo D’alma perdida por um céo de amores, Tanto como a sua voz não arroubavão!

Tanto como a sua voz!--somente o forão Dulces notas de mysticos salterios Té nós de um astro em outro repetidas. Foi isto o que senti, quando a escutava, Fluente, armoniosa, discorrendo Em pratica singela, sobre assumptos Diversos, sobre flores, menos bellas Do que o seo rosto, e céos, como ella, puros. Mas quem n’a ouvira conversar de amores Trouxera n’alma como uma harpa eolia, Dia e noite vibrando, Como um cantar dos anjos Do coração a estremecer-lhe as fibras!

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SE SE MORRE DE AMOR!

Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liebenden--aber die Seelen versetzen sich aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe. SCHILLER. _Die Räuber._

Se se morre de amor!--Não, não se morre, Quando é fascinação que nos surprende De ruidoso saráu entre os festejos; Quando luzes, calor, orchestra e flores Assomos de prazer nos raião n’alma, Que embellezada e solta em tal ambiente No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Sympathicas feições, cintura breve, Graciosa postura, porte airoso, Uma fita, uma flor entre os cabellos, Um quê mal definido, acaso podem N’um engano d’amor arrebatar-nos. Mas isso amor não é; isso é delirio, Devaneio, illusão, que se esvaece Ao som final da orchestra, ao derradeiro Clarão, que as luzes no morrer despedem: Se outro nome lhe dão, se amor o chamão, D’amor igual ninguem succumbe á perda.

Amor é vida; é ter constantemente Alma, sentidos, coração--abertos Ao grande, ao bello; é ser capaz d’extremos, D’altas virtudes, té capaz de crimes! Compr’hender o infinito, a immensidade, E a natureza e Deos; gostar dos campos, D’aves, flores, murmurios solitarios; Buscar tristeza, a soledade, o ermo, E ter o coração em riso e festa; E á branda festa, ao riso da nossa alma Fontes de pranto intercalar sem custo; Conhecer o prazer e a desventura No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto O ditoso, o miserrimo dos entes: Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem Para dizer que amor que em nós sentimos; Temer qu’olhos profanos nos devassem O templo, onde a melhor porção da vida Se concentra; onde avaros recatamos Essa fonte de amor, esses thesouros Inexgotaveis, d’illusões floridas; Sentir, sem que se veja, a quem se adora, Compr’hender, sem lhe ouvir, seos pensamentos, Seguil-a, sem poder fitar seos olhos, Amal-a, sem ousar dizer que amamos, E, temendo roçar os seos vestidos, Arder por afogal-a em mil abraços: Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porêm emfim transborda, Se tem na terra o galardão devido Em reciproco affecto; e unidas, uma, Dois seres, duas vidas se procurão, Entendem-se, confundem-se e penetrão Juntas--em puro céo d’extasis puros: Se logo a mão do fado as torna extranhas, Se os duplíca e separa, quando unidos A mesma vida circulava em ambos; Que será do que fica, e do que longe Serve ás borrascas de ludibrio e escarneo? Póde o raio n’um pincaro cahindo, Tornal-o dois, e o mar correr entre ambos; Póde rachar o tronco levantado E dois cimos depois verem-se erguidos, Signaes mostrando da alliança antiga; Dois corações porêm, que juntos batem, Que juntos vivem,--se os separão, morrem; Ou se entre o proprio estrago inda vegetão, Se apparencia de vida, em mal, conservão; Ancias crúas resumem do proscripto, Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive a propria ruina, Ao seo viver do coração,--ás gratas Illusões, quando em leito solitario, Entre as sombras da noite, em larga insomnia, Devaneiando, a futurar venturas, Mostra-se e brinca a apetecida imagem; Esse, que á dôr tamanha não succumbe, Inveja a quem na sepultura encontra Dos males seos o desejado termo!

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A MORTE É VÁRIA.

(TRADUCÇÃO.)

A morte é vária e multiforme, e múda De trajes e de mascaras mais vezes Qu’uma cançada actriz; Nem sempre é, qual se pinta, o negro espectro D’ironico sorriso e brancos dentes, E d’horrido cariz.

Nem todos seus vasallos são poeira No resalto de pedra adormecidos Por sob as arcarias; A pallida libré nem todos vestem, Nem sobre todos jaz murada a porta Nas cryptas sombrias!

Diversa a natureza é d’outros mortos: Nestes que a sanie e podridão consomem, Vê-se o nada palpavel; Vê se o enojo, o horror, a sombra espessa E o esfaimado esquife, abrindo as fauces, Qual monstro insaciavel!

Cabe a outros porêm que sem dôr vemos Passar, gyrar no turbilhão dos vivos, De carne inda vestidos, O nada inda encuberto; cabe a interna Morte, que ninguem sabe, nem chóra, Nem mesmo os mais queridos!

Pois, se vamos a ver nos cymiterios As campas, ou illustres ou sem nome, De marmore ou torrão; Ou tenhamos alli amiga palpebra, Ou não,--do teixo á sombra descançada, Quer choremos, quer não!

«Jazem» dizemos. Os nomes desparecem Sob a relva; o verme nesses olhos Enréda a teia crúa! Por entre as pranchas do caixão despontão Hirtos cabellos, e em pó funereo envolta Branqueja a ossada núa.

Os herdeiros não temem que mais vólte; Esquecerão-n’o já: seos cães se lembrão, Soltando uivos de dôr! Acama-se a poeira em seos retractos: Já não tem mais rivaes, não tem amigos, Nem odios, nem amor!

Da morte o anjo, em lagrimas de pedra Vemos sosinho e mudo a pranteal-o, Estatua da afflicção: A cova toma o corpo, o olvido o nome, Tem por lençóes seis pés d’humida terra.... Mortos, bem mortos são!

E dos olhos talvez se vos deslise O pranto sobre a relva, pelo orvalho E chuva humedecida; Que na triste mansão os regozije, E por essa oblação enternecidos Um resto achem de vida.

Mortos do coração ninguem os chóra, Ninguem, se a um destes vê, lhe diz piedoso: «Seja o Senhor comtigo.» Curão do morto, lavão-lhe as feridas; Mas a alma estala sem que alguem se dôa, Nem mesmo o mais amigo!

Ha comtudo pungentes agonias Nunca sabidas, dores horrorosas Mais do que se não crê; Almas ha que tem cruz e passamento, Sem aureola d’oiro e a mulher pallida E desgrenhada--ao pé.

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SEXTILHAS DE FREI ANTÃO.

J’ai fait de ma chambre la cellule d’un cloître, j’ai béni et sanctifié ma vie et ma pensée; j’ai raccourci ma vue et j’ai éteint devant mas yeux les lumières de notre âge: j’ai fait mon coeur plus simple, et l’ai baigné dans le bénitier de la foi catholique; je me suis appris le parler enfantin du vieux temps: et j’ai écrit!... STELLO.

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LOA DA PRINCEZA SANCTA.

Bom tempo foy o d’outr’ora Quando o reyno era christão, Quando nas guerras de mouros Era o rey nosso pendão, Quando as donas consumião Seos teres em devação.

Dava o rey huma batalha, Deos lhe acudia do céo; Quantas terras que ganhava, Dava ao Senhor que lhas deo, E só em fazer mosteyros Gastava muito do seo.

Se havia muitos Iffantes, Torneyo não se fazia; He esse o estilo de Frandres, Onde anda muita heregia: Para os armar cavalleiros A armada se apercebia.

Chamava el-rey seos vassallos E em côrtes logo os reunia: Vinha o povo attencioso, Vinha muita cleregia, Vinha a nobreza do reyno, Gente de muita valia.

Quando o rey tinha-los juntos Começava a discursar: «Os Iffantes já são homens, Vou-me ás terras d’alem-mar Armal-os hy cavalleiros; Deos Senhor m’ha de ajudar.»

Não concluia o pujante Rey--de assi lhes propor, Clamavão todos em grita Com vozes de muito ardor: «Seremos nessa folgança, Honra de nosso Senhor!»

E logo todos em sembra, Todos gente mui de bem, Na armada se agazalhavão, Sem se pezar de ninguem; E os Padres de Sam Domingos Hião com elles tambem.

Hião, si, os bentos Padres: E que assi fosse, he rezão, Que o sancto em guerras d’Igreja Foy hum bom sancto christão: Queimou a muitos hereges No fogo da expiação!

Quando depois se tomava Toda a frota pera cá, Primeiro se perguntava, «Que terras temos por lá?» Quem em Deos tanto confia, Sempre Deos por si terá.

El-rei tornava benino, Como coisa natural: «Temos Ceita, Arzilla ou Tangere, «Conquistas de Portugal!» E todos, a voz em grita, Clamavão: real! real!

Bom tempo foy o d’outr’ora Quando o reyno era christão; Os moços davão-se á guerra, As moças á devação: Aquella terra de mouros Vivia em muita afflicção.

Deo-nos Deos tantas victorias, E tanto pera louvar, Que os Padres de Sam Domingos Ja não sabião rezar; Todo-lo tempo era pouco Pera louvores cantar!

Sendo tantas as batalhas, Nem recontro se perdeo! Aquelles Padres coitados Não tinhão tempo de seo; Levavão todo cantando Louvores ao pay do céo.

Louvores ao pay do céo, Que eu inda possa trovar, Quando não vejo nos mares Nossas quinas tremolar; Mas somente o templo mudo, Sem guarnimentos o altar!

Vejo os sinos apeados Dos campanarios subtiz, E a prata das sacristias, Servida em misteres vis, E ante os leões de Castella Dobrada a Luza cerviz!

Cant’eu, em bem que sou Padre, Diga que sou Portuguez: Arço de ver nossas coizas Hirem todas ao revez, Arço de ver nossa gente Andar comnosco ao envez.

Mercê de Deos! minha vida He vida de muita dura! Vivo esquecido dos vivos Na terra da desventura; Vivo escrevendo e penando N’um canto de cella escura.

Do meo velho breviario Só deixarei a leitura Pera escrever estes carmes, Remedio á nossa amargura; O corpo tenho alquebrado, Vive minha alma em tristura.

* * * * *

Que armada de tantas velas, Que armada he essa qu’hy vem? Vem subindo Tejo acima, Que fermosura que tem! Nas praias se apinha o povo, E as cobre todas porêm.

Dão signays as fortalezas, Respondem signays de lá: Vem el-rey victorioso! Quem de gaudio se terá? O mar he todo bonança, O céo mui sereno está!

Ôco bronze fumo e fogo Já começa a despejar; Acordão alegres echos Os sinos a repicar; Grita e folgança na terra, Celeuma e grita no mar!

Vinde embora mui depressa Senhores da capital! Vinde ver Affonso quinto, Rey, senhor de Portugal; Vem das terras africanas Dar-vos festança real.

Nossos reys forão outr’ora Fragueiros de condição; Dormião quasi vestidos, Espada nua na mão; Nem repoisavão de noite Sem fazer sua oração.

Empresa não commettião Sem primeiro commungar, Sem fazer voto á algum sancto De tenção particular; Porêm victorias houverão, Que são muito de espantar!

Os vindouros esquecidos Da protecção divinal, Conhecerão os poderes Da benção celestial, Se contarem os mosteyros Das terras de Portugal!

Nossas capellas que temos, Nossos mosteyros custosos, São obras sanctas de Sanctos, Obras de reys mui piedosos; São brados de pedra viva, Que prégão feitos briosos.

Alguns já agora escarnecem Dos templos edificados; Dizem que foram mal gastos Os bens com elles gastados: Eu creio (Deos me perdôe) Que são incréos disfarçados!

E mais prasmão dos feitios De pedra, que Memphis tem, Sem ter olhos pera Mafra, Pera Batalha ou Belem! Oh! se a estes conheceras, Meo Frey Gil de Santarem!

N’aquella villa deserta Ainda se me afigura Ver elevar-se nas sombras Tua válida estatura, E ouvir a voz que intimava Ao rey a sentença dura!

E mais a tacha que tinha Era ser fraco, e não mais! Tu, meo Sancto, que fizeras, Se ouviras a estes tais, Que nos assacão motejos Ás nossas obras reais!

Mas vós, quem quer qu’isto lerdes Relevai-me esta tardança; São achaques da velhice: Vivemos de remembrança E em longas fallas fazemos De tudo commemorança.

* * * * *

Já el-rey Affonso quinto Nas suas terras pojou: Alegre o povo o recebe, Alegre el-rey se mostrou; Abrio-se em alas vistosas, El-rey entre ellas passou.

Vem os muzicos troando Nos atabales guerreiros, Tangem outros istromentos Desses climas forasteiros, E traz elles vêm marchando, Passo a passo, os prisioneiros.

São elles mouros gigantes De bigodes retorcidos, Caminhão a passos lentos, Com sembrantes de atrevidos. Causa medo vêl-os tantos, Tam membrudos, tam crescidos!

São homens de fero aspeito, Homens de má condição, Que vivem na lei nojenta Do seo nojento alkorão, Que--vinho? nem querem vê-lo, Só por que o bebe um christão!

Vêm as moiras depois delles, Rostos cobertos com véos; Bem que filhas d’Agarenos, São tambem filhas de Deos; Se forão christans ou freiras, Serião anjos dos céos.

Luzião os olhos dellas Como pedras muito finas; Devião ser nas bruxas, Inda qu’erão bem meninas, Que estas moiras da mourama Nascem já bruxas cadimas

Huma dellas que lá vinha Olhou-me á travez do véo!... Foy aquillo obra do demo, Quasi, quasi me rendeo! Pensei nella muitas vezes, Valerão-me anjos do céo!

Via as largas pantalonas, E o pesinho delicado... Como póde pensar nisto Hum pobre frade cançado, Hum padre da Observancia, Que sempre come pescado?!

Emfim, dizer quanto vimos Não cabe neste papel; Vinhão muitas alimarias, Como achadas a granel; Vinha o infante brioso, Montado no seo corsel.

Vinhão pagens e varletes, Vinhão muitos escudeiros, Vinhão do sol abrazados Nossos robustos guerreiros; Vinha muita e boa gente, Muitos e bons cavalleiros!

* * * * *

A Princesa Dona Joanna Sahio dos Paços reais; Era moça, e muito airosa, E dona de partes tais, Que todos lhe qu’rião muito, Estranhos e naturais!

Foy requerida de muitos E muito grandes senhores, Por fama que della tinhão, E por copia de pintores, Que muitos vinhão de fóra Ao cheiro de seos louvores.

E diz-se d’hum rey de França, Ludovico, creio eu: Hum pobre frade mesquinho Só trata em coisas do céo; Sabe elle que muito sabe, Se a bem morrer aprendeo.

Pois diz-se do rey de França, O onzeno do nome seo, Que vendo hum retrato destes Pera si logo entendeo, Qu’era prodigio na terra Quem tanto tinha do céo.

E logo sem mais tardança Cahio, giolhos no chão, No feltro traz arreliquias, Assi uza hum rey cristão; O seo feltro poz diante, E fez hy sua oração!

* * * * *

Sahio a real Princeza, Sahio dos Paços reais Nos pulsos ricas pulseiras, Na fronte finos ramais; De longe seguem-lhe a trilha Muitos bons homens segrais.

Traçava hum mantéo vistoso Sobolas suas espaldas, E as largas roupas na cinta Prendia em muitas laçadas; Seos olhos valião tanto Como duas esmeraldas.

Tinha elevada estatura E meneyo concertado, Solto o cabello em madeixas, Pelas costas debruçado: Cadeixo de fios d’oiro, Franjas de templo sagrado.

Vinha assi a regia Dona, Vinha muito pera ver: O povo em si não cabia, Quando a via, de prazer; Era ella sancta ás occultas E anjo no parecer!

Debaixo das telas finas E dos brocados luzidos, Trazia á raiz das carnes Duros cilicios cozidos E humas crinas muito agras, Tudo extremos mui subidos.

Passava noites inteiras No oratorio a rezar, Dormia despois na pedra Sem ninguem o suspeitar: Extremos tais em princeza Quem n’os ha de acreditar?

No dia de lava-pés Ordenava ao seo Vedor, Trazer-lhe doze mulheres; E depois, com muita dôr, Chorando os pés lhes lavava, Honra de nosso Senhor!

E depois de os ter lavado, Não perdia a occasião, Despedia a todas juntas Com sua esmola na mão: Dizia que era humildade, E obra de devação.

E as mendigas prasmadas Sahião de tal saber, E perguntavão, quem era Aquella sancta mulher?! Máos peccados que ella tinha Só pera assi proceder!

O mesmo Vedor foy quem Isto despois revelou, Quando aquella humanidade Em o Senhor descançou; Dona Joanna era já morta, Elle porêm m’o contou.

Mas sendo tanto o resguardo Que guardava em coisas tais, Sabião algo os estranhos Por muitos certos signais, Que o ar he todo perfume, Se a terra he toda rosais.

He coisa de maravilha Que me faz scismar a mi, Que as donas d’hoje pareção Huns camafêos d’alfim, Não donas de carne e osso; As donas d’outr’ora--si.

Hoje leigos de nonnada (He lhes o demo caudel) Praguejão a meza escaça E as arestas do burel; Querem mimos e regalos, E jejuns a leite e mel.

* * * * *

Lá caminha Dona Joanna, Regente de Portugal; Traz sobre si muitas joias Do thesouro paternal; Deos lhe pôz graça divina Sobre a graça natural.

«Acostou-se a comitiva, Muito senhora de si: Perante el-rey se agiolha, Disse-lhe el-rey: não assi! E ao peito a cinge dizendo: Não a meos pés, mas aqui!»

«Sois hum bom pay, Senhor rey, Tomou-lhe a sancta Princeza: Eu que sou vassalla vossa E filha por natureza, Peço mercê como aquella, Como esta peço fineza.»

Ficarão logo suspensos Todolos que erão aly, Ficarão como enleiados, Enleio tal nunca vi! Eis que a Princeza medrosa Começa a propor assi.

El-rey não lhe respondera; Que lhe havia responder? Boa filha Deos lhe dera. Que lhe havia defender? Sorrio-se, o bom rey quizera Muito por ella fazer.

A Princeza disse entonces: «De alguns capitães antigos Tenho lido, Senhor rey, Que, vencidos os imigos, Tornavão, a Deos fazendo Sacrificios mui subidos.

«Vião as coisas melhores Que dos seos reynos havião, E logo lh’as offertavão; E mercês tambem fazião, No dia do seo triunfo A los que justas pedião.

«Deslembrar a usança antiga Fôra de grande estranheza; Agora sobre maneira, Perfeita tamanha empreza, De tanto lustre aos do reyno, De tal honra a vossa Alteza.

«Digo pois a vossa Alteza, E digo com muita fé, Deve a offerta ser tamanha Quammanha foy a mercê, Não do nobre rey pujante, Mas do sancto rey qual he.

«A offerta que vos fizerdes, Será mercê paternal: Se quereis que corresponda Ao favor celestial, Deve ser coisa mui alta, Deve ser coisa real.

«Ao Deos que vence as batalhas Dai-lhe a filha muito amada; Dai-lhe a só filha que tendes Em tantos mimos criada: Será a offerta bem quista E do Senhor acceitada.

«E eu a quem mais custou De medos, esta jornada, Que muitas noitas orando Passei em pranto banhada, Sou eu, Senhor, quem vos peço Ser a hostia a Deos votada.»

Que sancta que era a Princeza, Que extremos de devação! Nos sembrantes dos presentes Vio-se, e não era razão, Que a nenhum delles prazia Deferir tal petição.

Sobr’esteve um pouco e mudo, El-rey, por que muito a amava: Aquelle dizer da filha Todo o prazer lhe aguava, Aquelle pedir sem dó Todo o ser lhe transtornava.

Encostou-se ao hombro della O pobre velho cançado, Chorou o triunfo breve E o prazer mal rematado, Não como rey valeroso, Mas como pay anojado.

El-rey despois mais tranquillo Rompeo o silencio alfi’; E entre afflicto e satisfeito Disse á filha: Seja assi!... Velhos guerreiros vi eu Chorarem tambem aly.

Cant’eu perdido entre o vulgo Não sei que tempo gastei, Nem sei de mim que fizerão, Nem tam pouco se chorei; Foi traça da providencia: Nisto commigo assentei.

Foy Jephté corajoso, O forte rey de Judá; Volta coberto de loiros, Quem primeiro encontrará? Sente a filha, torce o rosto... Nada ao triste valerá.

Qual d’estes dois sacrificios Soube a Deos mais agradar? Vai a Hebrea constrangida Depor o collo no altar, Vai a christã jubilosa! São ambas pera pasmar.

* * * * *

Depois n’hum dia formoso, Era no mez de Janeiro, Houve huma scena vistosa Dentro de hum pobre mosteyro; Fundou-o Brites Leytoa, Dona mui nobre d’Aveiro.

Huma princeza jurada, Sobrinha d’altos Iffantes, Filha de reys soberanos, Senhora das mais pujantes, Era a primeira figura, Espantava os circunstantes.

Aly humilde e curvada, Pezar de todos os seos, Giolhos sobre o ladrilho E as mãos erguidas aos céos, Ouvi--exigua mortalha Pedir polo amor de Deos.

Cantemos todos louvores, Louvores ao Senhor Deos: Os anjos digão seo nome, Rostos cobertos com véos; Leião-n’o os homens escripto No liso campo dos céos.

Bom tempo foy o d’outrora Quando o reyno era christão, Quando nas guerras mouriscas Era o rey nosso pendão, Quando as donas consumião Seos teres em devação.

«Isto escreveo Frei Antão De vida mui alongada, Nossa Senhora da Escada O teve por Capellão.»

* * * * *

GULNARE E MUSTAPHÁ.

Deos Senhor foy quem nos céos Pendurou milhões de estrellas, Foy quem matisou a terra De froles varias e bellas, Quem ao mar por ser pujante Areias deo por cancellas.

Mandou mais qu’arvoles fortes Das sementes germinassem, Que déssem froles mimosas, Que perfumes trescalassem, E mais fez que em tempo azado As froles fructificassem.

Pois aquelle anjo das trevas, Imigo da humanidade, Nas arvoles poz carcoma, Poz na frol muita ruindade, Poz nos céos a nuvem negra, Poz no mar a tempestade.

Nem só nas coisas terrenas Damna, e faz mal o tredor, A alma tambem por mil modos Tenta com geito e sabor, Que troca o prazer celeste Em penas d’eterna dôr!

Mas não foy jamais que Deos Em tal feito consentisse, Senão porque suas posses O homem bem claro visse; Que sem elle fôra o mundo Maldade só e sandice.

Mas que mal ha hy na terra Que não venha pera bem? Os d’aqui desta amargura Dão coyta, e gloria porêm; Dos outros que traz o demo Deos o remedio lá tem.

Do mal que me foy commigo Acontecido, al não sei, Senão que por amor delle Muito má vida levei, Que me dá coyta mui grave Do mal que me comportei.

Como já fiz penitencia, Ora farei confissão; Tal será, qual foy o escand’lo De que fui occasião: Não me tomem por modelo, Mas tomem de mi licção.

Não he pera honra minha, Mas pera honra dos céos, Que eu direi publicamente Os feios peccados meos; Toda a vergonha foy minha, Toda a honra cabe a Deos.

He uso assi na milicia Celeste, e mais na d’aqui: Dá batalha o cabo experto, Desses muitos que ha per hy; Toda a preza aos seos concede, Só lôa quer pera si.

* * * * *

A Princeza Dona Joanna Já vive dentro d’Aveiro; Comsigo trouxe os escravos, Que lhe trouxe o rey fragueiro; O que ás terras africanas Passou, e voltou primeiro.

Vierão aquelles feios Netos d’Agar, inda mal! Traçando vastas roupagens Á maneira oriental; Larga faxa na cintura, Na faxa largo punhal.

Era pasmo vel-os juntos Polas ruas passear, Passo á passo--graves, mudos, Com doairos d’espantar, Profundas rugas na fronte Rugas de máo meditar.

Levar traz si tanta gente Nunca a ninguem vi assi; Nem folias, nem cantares Vi com tal cauda apoz si, Bôdo, nem festa d’orago, Bufão, e nem bolati’.

Mas quem vio acaso as turbas Correrem traz algum bem? Vão todas apoz engodos, Apoz maldades tambem; Mas seguir a Deos por gosto Nem as vi, nem vio ninguem.

Com estes mouros descridos Vierão tambem aquellas Moiras, filhas da Mourama, Donas, creio, muito bellas; No trato e no galanteio Outras que tais Magdanellas.

Vinha tambem a menina, Aquella moira fatal, Que nas ruas de Lisboa Vi no cortejo real: Cortejo del-rey Affonso Vi-o eu, só por meo mal!

Quantas coisas que trazia, Nulla rem lhe estava mal; Dizião que tudo nella Tinha graça natural, Era coisa preciosa, Como coisa oriental.

Aquella abelha sem dardo, Aquella pomba sem fel Passava noites inteiras Tangendo n’hum arrabel, Coando vivas saudades Dos labios, em leite e mel.

E, alta noite, nas trevas Ouvindo na solidão Aquelle triste instrumento, Al não disseras, senão Que o mesmo demo voltado Era n’aquella feição.

Zagales porêm da serra Mil vezes, no fim do dia, Polos montes não buscava A sua ovelha erradia; Mas no bordão apoiado, De si mesmo se esquecia.

Cant’eu vendido e prasmado De todos e mais de mi, Mil vezes fugi da cella, Té das matinas fugi, Mil vezes, durante a noite, Aquelle instrumento ouvi.

Mil vezes!... e não sei como Isto foy, que o não sentia, Quando mal me precatava, Dava commigo que ouvia Dilatar-se polos valles Aquella doce harmonia.

Assi todo embevecido Bons sonhos que então sonhei, Boas venturas que tive, Bons scismares que scismei! Esqueci-me de ser frade! Como isto foy, já não sei.

E se ás vezes me lembrava Do juramento que dei, Do encargo que me tomára, E das vestes que eu tomei, Chorava; e não sei bem como Em pranto não me afundei.

Derramei n’aquellas brenhas, Cheio d’extranha afoiteza, Palavras dadas ao vento Com muito feia crimeza, Contra mi e contra todos, Contra toda a natureza.

Polas serras, polos matos, Polas voltas dos caminhos Rojei nas sarças mordentes E nos cardos montesinhos, Rasgando os brancos vestidos N’aquellas matas d’espinhos.

E não sei, oh! não sei como Todo eu não fiquei aly, Como eu que por tantas vezes Rosto nas rochas feri, Não perdi o ser de todo, Nem siquer ensandeci.

Então ao Senhor clamava: «Cegueira, Senhor, me dás! Cinge-me os rins larga zona De ferro, e bem me não traz; Trago cilicios mordentes, Usando burel mordaz.

«Abro e vejo o livro sancto, E vejo que não sei ler! Aquelles sanctos dictames Já n’os não sei compr’hender; Enojo occupa minha alma, Hei pavor de me perder!»

Donde pois me vinha a mi No proprio bem ver o mal? Conheci no meo exemplo, Que m’era do ser fatal: Senhor, teo sancto remedio He triaga cordial.

Bem como o ferro na fragoa, No soffrer a alma se apura, Assi que disse eu commigo Que a triaga tambem cura, Quanto mais amarga e punge, Poder de sua amargura.

* * * * *

Aquella negra peçonha Lavrando foy pouco e pouco; Rohia coyta d’amores Miôlo cavado e ôco, Já era o mal dentro d’alma, E eu delle rendido e louco.

Dizião meos bentos Padres: «Que he feito de Frei Antão? Negra dôr o tem por certo, Negra dôr de coração: O demo o fez, porque visse Turbada tal perfeição.

«Parece já de esquecido Que nem de si tem lembrança! A taboa se achega apenas, Não toma a sua pitança; Té nos officios divinos Perdeo a sua trigança.

«Sahe á noite muitas vezes, Diz o bom do Guardião: Sahir á noite, á deshoras, Certo não he devação: Que faz de noite nas ruas Hum padre, ou frade ou christão?»

Com tudo alguns dos mais velhos Dizião: «Que ha hy de mal?» O quer que he que o pertuba, Coisa não he natural: Deve ser condão divino Ou graça celestial!

«Pois hum sancto como aquelle! Quem he que o ha de tentar?» Eis senão quando começa Voz, não sei donde, a zoar Que Frei Antão ja não sabe No seo rosairo rezar!

E o caso foy que hum noviço Tirou-mo só de matreiro, Tendo-o fechado comsigo Por novena ou mez inteiro; E eu d’outro me não provêra, Sendo que tinha dinheiro!

Todolos meos defensores Voltarão-se contra mi; Dizião que era mal feito Hum sancto mentir assi: Seja-me Deos testemunha, Nem sancto sou, nem menti.

Logo em Communidade Propoz-me o Provincial: «Dizei _peccavi_, meo Padre, Que voz havedes tão mal, Que não rezades as rosas Da virgem celestial!»

Ouvido que foy por mi Tão solemne mandamento, Ámi, que primara sempre Adentro do meo convento, Não sei que pejo maldicto Acorreo-me ao pensamento.

Não era feio o peccado, Mas confessal-o; e assi Fiquei de pavor tranzido, Mal que tal preceito ouvi: Homem não era de carne, Montanha de pedra--si.

Torvado, calado e mudo Nada não soube dizer; Nem confessar meo peccado, Nem ao menos responder: Ficárão como suspensos Os que erão aly a ver.

O grave Provincial Rompe o silencio, e «Azinha Trazei, disse elle, o hyssope, Mais a benta caldeirinha; Ver demo em corpo de frade Coisa não he comezinha!»

Corre afanado o Sacrista Pera a sua sacristia, Traz prestes a caldeirinha Banhada inteira na pia; Rezava mil rezas suas, Mil esconjuros dizia.

Do Sacrista amedrontado Recebe o Provincial O hyssope todo molhado, Dizendo sacerdotal: «Fugide, partes adversas, Demonio, esprito do mal.

«E mais deixa a criatura Por amor de quem Jezus Soffreo marteyro affrontoso, E morte vil n’huma cruz; Em nome do Padre e Filho E Esprito, que sempre luz!»

Ouvido aquelle exorcismo, Cego de toda a razão, Larguei-me do refeitorio, Fugindo como hum ladrão: Clamárão todos em grita: «Chantou-se nelle o Legião!»

Enfiei os claustros todos, Passei pola portaria, Achei-me em logar, de noite, Que eu mesmo não conhecia: Os sons do arrabel mourisco Somente daly se ouvia.

No entanto os Padres prudentes Discursavão entre si, Dizião dos esconjuros Que mal cabião em mi, Que era grande sacrilegio Usarem commigo assi.

Ai! sacrilegio era o homem Que ao inferno se vendia, Era o christão que adorava As filhas da idolatria, Que dentro em si tinha o Demo, E o Demo em si não sentia;

Era o Padre que trocára O amor de seo Senhor Por amor d’huma Donzella, Filha d’aquelle impostor, Mafoma, falso propheta, Mafoma, judêo tredor!

* * * * *

A princeza Dona Joanna Mandou ao nosso Convento: Qu’eu prestes vá ter com ella Manda por seo mandamento; Não quer demora, nem falta, Negocio diz de momento.

Qual seja o negocio urgente Não m’o diz a mensageira; Não sabe coiza de certo, Não dirá coisa certeira: O habito á pressa enfio, Tomando-lhe a dianteira.

E logo, chamada á grade, Veio a Princeza real: «Meo Padre, disse-me entonces, He fóra do natural Qu’eu tenha escravos, e mouros, Rainha de Portugal.

«Ide vós porêm chamal-os Pera o rebanho christão; Cazade-os vós muito embora, Que bem dahy haverão: Eu lhes darei corpo livre, Deos Senhor a salvação.»

Siquer huma só palavra Não tive n’aquelle ensejo, Sustou-m’a já na garganta Não sei que mesquinho pejo; Por confessar meo peccado Em vão trabalho e forcejo.

Vergonha foy o que eu tive, Vergonha que todos têm; Ultimo fructo colhido N’aquelles jardins do Eden; O Demo o tocou primeiro: Todo o seo mal dahy vem!

Como está no fundo lago O verde limo acamado, Assi deitado e mimoso Brilha lustre avelludado; Tal é aquella vergonha, Que vem apoz o peccado.

Mas remechei nas raizes Do limo que he tão viçoso, E vereis como se prendem No fundo impuro e lodoso: Aly com ellas se abraça O feio verme asqueroso!

Aly mil serpes occultas Vivem, cruzando laçadas, Muitos sapos bufadores, Muitas rãs esverdinhadas; Humas coizas de má sina, Outras coizas mal fadadas.

* * * * *

He força fallar a moira! Disse commigo, e assi Andava curtas passadas Por não chegar; ai de mi! Tem termo toda a jornada, Cheguei! porque não morri?

Já d’aquelles outros mouros, Tão feros, não se me dava; Mas de suor de maleitas O corpo se me banhava, Quando d’aquella menina Moirisca, me recordava.

Lançado em covil de feras Foy o sancto Daniel, Fui eu no covil lançado D’aquella gente infiel; Era elle experto em tais lutas, Eu em tais lutas novel.

Entrei no quarto da moira Leixando a mais gente vil, Ardia doce perfume Em transparente viril; Sobre um bofete lavrado Vi hum lavrado gomil.

Tinha o quarto huma só porta Que hum reposteiro cobria, E hum pano de seda verde Sobre a estreita gelosia, E mais hum denso tapete, Que o som dos passos comia.

Trazia a moira mimosa Vestes de branco setim Entreteladas parece De coiza de bocachim, E humas largas pantalonas, Respirando benjoim.

Trazia hum jubão mui justo De seda azul anilado, Com longas mangas perdidas, De carmim todo ferrado, Como se fôra hum alfange, Na cintura recurvado.

Coifa branca auri-bordada A negra coma apertava; Que doces anneis brincados A negra coma formava, Quando por vezes no collo De neve--se debruçava!

Sob as largas pantalonas Hum pesinho delicado Sahia nusinho e bello, Mimoso e branco e nevado; Em chapins dos mais pequenos Parecia andar folgado.

Em cada hum dos seos dedinhos Trazia a moira hum annel; Meio deitada, á desleixo, Tangia no arrabel; Tangia-o com tanta graça, Nem que fôra hum menestrel.

A lettra que ella cantava Era de lingoa algemia; Era qual trinar das aves As notas em que gemia Saudades de longes terras Em peregrina harmonia!

Era menina e formosa, Nunca lhe vi sua igual! Coiza assim tam primorosa E tanto celestial, Ou era filha dos anjos, Ou filha do pay do mal.

Deos Senhor, entre luzeiros, E o demo em sua cegueira, Fazem quasi as mesmas coizas Mas por diversa maneira; O demo como quem he, Deos como luz verdadeira.

Pois este pôz a virtude Entre afflicções dolorosas, Qual frol de rosa entre espinhos; Em ledices enganosas Poz o demo o seo peccado, Qual feia serpe entre rosas.

* * * * *

Quanto o sol mais se abaixava, Tanto mais alto gemia Aquella moira mimosa, Que as suas magoas carpia: He hora que espalha enlevos A hora do fim do dia!

O passaro então das ramas, Louvor a nosso Senhor! Ultimo vôo desprega E hum doce grito de amor; Nas pennas esconde o bico, Nem teme o visgo tredor.

As froles do sol viuvas Definhão, só de tristura: O mar soluçando geme, Mais alto a fonte murmura, Reina o silencio que falla, Bafeja a doce frescura.

«Vistes vós meo bem amado, (Dizia a filha d’Allah) «Vistes vós meo bem amado, «O meo senhor Mustaphá! «Se o vistes, dizei-me onde! «Por alma vossa, onde está?

«A noite o deixou fechado «Portas a dentro do harem: «Sorvia aquelles perfumes, «Que lá d’Arabia nos vem; «Trajava os reais vestidos, «Que lhe cahião tão bem.

«Já era sobre-manhã «Quando de mi se apartou; «Seo negro corsel d’Arabia «D’um pulo só cavalgou, «E o sol que vinha raiando «Lá na montanha o topou.

«Vio daly seos bons guerreiros, «Em alas promptos estão; «De fronte mal enxergava «O troço do rey christão; «Disse o crente musulmano: «Allah m’os trouxe, meos são!

«Allah! lhes grita o guerreiro, «Respondem-lhe os seos: Allah! «Gritão Christãos: Sam Tiago! «E o meo senhor Mustaphá «Desceo então da montanha, «Que nunca mais subirá.

«Desceo elle da montanha «Qual rocha descommunal, «D’agudo cimo tombando, «Arrazando o pinheiral; «Mas a rocha em fundo valle «Faz-se pedaços, em mal!

“Desceo elle ao fundo valle, “Como o tufão queimador; “Polos christãos inimigos “Cortou sem pena e sem dôr; “Raio d’esforço na guerra “Foy Mustaphá, meo Senhor!

“Mas o vento do deserto “Depois de médas formar “Das areias que agglomera, “Onde he que vai acabar? “Mafoma e Allah que mo digão, “Que eu não sei senão chorar!

“Allah quebrou teo orgulho, “Meo bom senhor Mustaphá! “Allah quebrou teo orgulho, “Mas quando se acabará “Vida que Vives de escravo, “Vida que levas tam má?

“Doces Huris do Propheta, “Lá do palacio de Allah, “Olhavão cá pera baixo “Só pera ver Mustaphá! “Guerreiro não foi como elle, “Como elle ninguem será.

«De ser elle o meo amado, «Ai que já fui bem feliz! «De ser elle o meo amado «Tinhão-me inveja as huris: «Ora não ha quem m’inveje! «Foy Allah que assim o quiz.

«Ora não ha quem m’inveje! «Tenho no peito afflicção; «Escrava sou d’hum escravo, «Escravo d’hum vil christão! «Mesquinha, que ainda o amo; «Trago-o aqui no coração!»

Então pera junto della Cheguei-me sem ser sentido; Fallei-lhe em som cavernoso, Medonho e baixo no ouvido: ¿Por que assi amas o escravo? Disse eu, do meo mal vencido.

Foy certo o esprito malvado Quem pera ally me arrastou, Quem nos meos castos ouvidos Palavras tais derramou, Quem aos pés da moça moira O velho padre acurvou.

Era elle quem nos meos hombros Pezava co’o pezo seo, Quando a moita espavorida Do vasto leito se ergueo: Vendo-me ally de giolhos, Baixou de medrosa o véo.

O véo baixou de corrida, Mas antes seos olhos vi; Aquelles olhos fermosos Lavar-me o rosto senti, Tocar-me no fundo d’alma, Tirar-me todo de mi.

Luz que vi d’aquelles olhos! Ora bem se me afigura A lua rasgando as trevas Em meio de noite escura: Vi Diana, a caçadora, N’aquella hardida postura.

* * * * *

Mas a moira de repente Hum grito franzino dá! De mi se parte voando, ¿Senhor Deos, o que será? Volto prestes a cabeça... Vejo o mouro Mustaphá!

Em roda do seo pescoço A moita os braços prendeo; Arfa-lhe o peito açodado; Pera traz roja o seo véo, Off’rece o rosto mimoso Aos beijos d’aquelle incréo!

Era assi qual amorosa Hera que hum robre vingou; Ligou-se estreita com elle, Do tope se debruçou, Folha metteo pelas folhas, Vida com vida cazou.

«Gulnare, disse-lhe o mouro, Gulnare, meo doce amor, Melhor que a rosa da Persia, Que arabio incenso melhor, Frol dos jardins do propheta, Que dás mate a minha dôr!»

Responde a moira mimosa: «Dizes bem, meo Mustaphá; O fogo chegou-se ao incenso, O incenso effluvios dará; O sol scintilla na rosa, A rosa resurgirá.»

Abelha, tornou-lhe o mouro, Que susurras de agastada; Herva, que as folhas constringes, De estranho corpo tocada; Quem tocou na minha abelha, Quem na herva delicada?

Ella entonces de malquista Deo-lhe d’olhos pera mi; Sancto Jezus! em que apertos N’aquelle ensejo me vi, Prendera-me força occulta, Foy porêm que não fugi!

Trazia o moiro atrevido Adaga no boldrié; Deixar a moiros com armas, Gente de baixa ralé, Em que escravos de Princeza, He certo extranha mercê!

A mão no punho da adaga, A passo, vem sobre mi; Trinca as pontas do bigode, Quais cerdas de javali; A barba toda se erriça, Que feio rosto lhe vi!

Os olhos que me lançou, Jamais não vi seos iguais; Devião ser puro fogo, Senão faiscas fatais D’aquelle sol do deserto, Que abraza e funde areais.

Negros olhos de panthera, Luzindo em feia spelunca; Olhos, que o gyro do sangue Nas veias demora e trunca; Olhos cheios de carniça E della não fartos nunca.

* * * * *

A mi chegou-se, inquirindo, “Que vieste aqui fazer?” Fiquei deslogo tremendo, Sem lhe poder responder: “Senhor,... em nome do céo!...” Disse eu; que havia dizer?

“Em nome das tres pessoas “Da trindade, em huma só, “Eu vos rógo, senhor mouro, “Que siquer tenhades dó “Da alma vossa arriscada, “Já não do corpo, que he pó.”

N’aquelle ensejo apertado De sancto ardil me vali; Lembrou-mo o exemplo sagrado Da forte hebréa Judith! Ser isso influxo divino Sabendo fiquei daly.

Tornou-me o mouro descrido: “E a mi que m’importa mais “Que viver entre valentes, “Em gozes celestiais, “Entre jardins prazenteiros, “Entre fagueiros rosais?

“Tu me fallas dos teos Deoses! “Ha outros sem ser Allah? “Allah, que o vôo dirige “Do bemfazejo Kathá! “Christão, dos teos falsos Deoses “Bem pouco a mi se me dá.

“Digo-te eu, que elles não podem, “Mais que digas que são trinos, “Suster no ar do propheta “Os sanctos restos divinos, “Que a Meca chamão por anno “Milhares de peregrinos.”

Ouvindo aquellas blasfemias, Senti arrojo dos céos; Hia fallar, mas o mouro Tornou-me: “Só Deos he Deos, “E Mafoma o seo Propheta, “Em que pêze isto aos increos!

“O que penso, sem resguardo “Dirt’o-hei, christão, alfim; “Não uza como vós outros, “Mahometano Muezzin, “Não vai á caza dos crentes, “Não leva tenção ruim.

“Não rója, não, de giolhos “Aos pés de christã donzella; “Mas lá dentro da Mesquita “Vive sempre e sempre vela, “Ou do alto minarete “Á prece os crentes appella.

“Portas á dentro do templo, “Imagem da crença pura: “De alto do minarete, “A imagem d’Allah figura, “Bradando incessante e sempre “Aos homens, daquella altura.”

“He assi entre vós outros,” Tornei-lhe, que entre nós não. “Queremos em cada caza “Hum templo de devação, “Em cada peito hum sacrario, “Hum padre em cada christão.”

* * * * *

Sobresteve mudo e quedo, E como que reflectia O moiro, que me parece A graça já presentia; A graça que o céo nos manda, Como orvalho em noite fria.

Mas não era inda chegado Aquelle ensejo feliz, Que passado curto prazo, Severo o moiro me diz: “O que Deos faz he bem feito: “Mouro nasci, não me fiz!

“Deixemos pois tal assumpto, “Delle não quero tratar; “Ou antes dizei, bom Padre, “Qu’hides carreira tomar, “Adoptando novo ensino, “Novo modo de pregar.

“Andai por essas estradas “E dizei á vossa gente: “A vós que mal vos hão feito “Os homens lá do oriente, “Que vos livrárão dos godos, “E do servir inclemente?

“As vossas artes que tendes “Cujo as havedes?--de quem? “Donde vêm ás vossas terras “Campos de lavra que têm, “E as torres acastelladas, “E as mesquitas, donde vêm?

“Quem nos vossos negros montes “As alcáçovas plantou, “Como candido turbante, “Que na fronte se enrolou “De hum homem da côr da noite, “Que a Nubia ardente engendrou?

“Ou s’isto melhor te praz: “São obras de reys pujantes, “Tendas ricas e pomposas “No dorso dos elefantes; “Cr’oas de pedra lavrada “Na fronte d’altos gigantes.”

Estes mouros na verdade Qu’esprito e graça que têm? Quando vos dizem mentiras, Sabem dize-las taõbem, Que havemos de perdoar-lhes, E em cima querer-lhes bem.

Mas andão tanto enfrascados No seo maldicto alkorão, Que era de ser o primeiro A soffrer condemnação N’aquelle sancto concilio, Honra do nome christão.

Se d’algo me peza a mi, Hé só polos não ver mais; Fazião prompta justiça Destes e d’outros que tais: Ardião com seos authores Em bons applausos gerais.

Se delles houvesse agora, De que pró nos não seria? Vive tal livro entre gabos, Que ally no fogo arderia, Com pasmo de seos authores, Que os têm por coiza mui pia.

E d’outros que só por artes Fruem da voga que têm, Que não sei onde he seu preço, Nem donde apreço lhe vem, Senão por vias occultas, Que as não descobre ninguem!

Mas deixemos estas coisas, Que não são de boa avença! O livro que eu reprovára Por muito justa sentença Trouxera-me coyta grave, Com mais grave malquerença.

Deixemos pois estas coisas; Bem qu’eu não saiba fallar, Senão com longos rodeios: (Vem-me o séstro de pregar) Quando me julgo no cabo, Mais longe estou de acabar.

* * * * *

“Mouro, n’aquella batalha,” Disse eu, “ouvidos me dá, “Quando o reyno teo perdeste, “Não chamaste por Allah? “Não te ouvio!--chama por Christo, “E Christo, Deos, te ouvirá.

“Vás as terras da Moirama, “Ou fiques em Portugal, “Senhor serás do teo corpo, “Vida terás natural: “Vê, se Gulnare formosa “O teo propheta não val!

“A moira que não foy feita “Pera servir a senhor, “Que de bella e de mimosa, “Parece que o mesmo amor “O corpo tem de quebrar-lhe, “E de apagar-lhe o candor.

“A moira doce nascida, “Doce creada; perol “Que só sabe apavonar-se “Da manhã polo arrebol, “Não nos jardins destas partes, “Mas onde mais queima o sol.

“A moira bella e mimosa! “Avezinha pipitante, “Qu’ama ar puro, espaço livre, “E céo de cor deslumbrante, “Que o vôo fugaz desprega, “Quando o sol he mais brilhante!

“Ai! não guardes a avezinha “Dentro de estreita prisão, “Não mudes a frol mimosa, “Que bem está no seo torrão: “Vai ás terras da Moirama; “Se queres hir, sê christão.”

Huma lagrima brilhante, Como que a furto luzia Nos olhos da moça moira, Que o moço moiro cingia; Em que nada lhe dicesse, Muitas coisas lhe pedia.

Em que algo não lhe escutasse, O mouro bem compr’endia Que mudas fallas fallava O pranto que ella vertia: Saudades erão da Patria, Que o mouro em sonhos só via.

Como havia resistir-lhe, Se ella pedia chorando; Se o mal por que ella passava, Tambem ’stava elle passando; Se o bem, que lh’ella pedia, Lhe estava dentro fallando?

Mas quando os vi abraçados E aquelle amor entendi, Do effeito das minhas vozes Eu mesmo me arrependi; Cravei as unhas no peito, Pezar de morte senti.

Té cheguei a ter desejos De ouvir-lhes hum não revel, E que então a moça moira, E mais o mouro donzel Parassem no fundo inferno, Provassem, como eu, seo fel.

Mas n’hum coração sincero Que poder que o pranto tem, Quando no peito o sentimos, Quando de huns olhos nos vem, Que fôra morrer por elles Prazer e mui grande bem!

Pedido tam gracioso O mouro agreste rendeo; De leixar o seo Mafoma Logo desly prometteo, Deixando a avença do demo, E os ritos do culto seo!

Já me não sinto enleiado Se o padre Adão manducou Aquelle fructo do Eden; Foy Eva quem lh’o offertou, Eva, mulher e sozinha, A qu’elle primeiro amou.

Mas quem tem visto mulheres, E tem a sua mulher, Ceder-lhe do seo proposto Por mero condescender! Se não he coisa do demo, Não sinto o que possa ser.

Mas fez mais a linda moira! Que sem me fazer pedido, Entendi que por amores Não devia andar perdido; Quando por outro era amada, Por outro della querido.

Hum pobre frade coitado Bem sabe que nada tem Nesta vida mal passada, Onde quitou todo o bem; Ninguem que vele por elle, Sobre quem vele--ninguem!

Curar da may infermada Bem pode o homem segral; Ha sempre casta donzella, Que se dôa do seo mal: O frade só, despojado Vive do fôro humanal.

* * * * *

Viverão aquelles mouros Depois desta occasião, Muitos annos bem logrados, Em amor e devação; Louvor ao sancto baptismo! Louvor ao nome christão!

Mas quando foy que nos veio Aquella peste primeira, Seta que o alvo attingia De bem talhada e certeira, Chegou ao christão novato Hora vital derradeira.

E a moira por este evento, Cheia de muita afflicção, Recolheo-se irmã noviça No convento d’Azeitão, Onde viveo muitos annos Em aturada oração.

Madres d’aquelle convento Dizem que a virão rezar, Em extasis jubilosas, Suspensa, erguida no ar; Favor do esposo divino, Milagres do muito amar!

Ouvindo aquelles extremos, Commigo logo assentei Que eu fôra hum pastor perdido, Que nas sombras divaguei, Té qu’huma ovelha esgarrada, Mercê de Deos, encontrei!

E a moira que eu tanto amára, Desly se me figurou Candida lã d’ovelhinha, Que a sarça agreste cardou; Ficou na sarça prendida, Ao vento se meneou.

E alguem que ally divagava, Felpas da lã recolheo, Bateo-as na fonte pura, E em branca tela as teceo; Depois no altar consagrado Ao Senhor Deos off’receo.

A mão de Deos poderoso Bem claro se vê então, Quando o torpe ismaelita Faz-se devoto christão: Só elle hum bom diamante Póde fazer do carvão.

Mudar o vicio em virtude, E a fraqueza em valor, E o calor em frescura, E a frescura em calor, E tudo assi por davante, Só elle, que é Deos Senhor.

Louvor a Deos nas alturas! E aos homens de bom talante Na terra paz e ventura; Paz e ventura constante, Senão na vida que passa, Na vida que sempre dura.

* * * * *

SOLÁO DO SENHOR REY DOM JOÃO.

Ora pois direi hum feito Do senhor rey Dom João, Segundo que foy do nome, Primeiro na devação, Primeiro mais que o primeiro, Mais que nenhum rey christão.

Nem sempre rezar no côro, Nem sempre velar convem; He mister algum descanço, Alguma folga tambem, Entre o labor já passado E o novo, que perto vem.

Ao duro mal que passamos Algum remedio he mister: E se a nenhum conhecemos, Que mais nos ha de valer Que recordar o passado E contos delle fazer?

He assi que no mar alto O cançado mareante Luta em vão contra a tormenta E contra o vento inconstante; Negras vagas se encapellão, Negra morte tem diante.

Quando n’aquelle deserto Languidos olhos estende, Vê mar que ferve revolto E chuva que do céo pende: Como deixou seu alvergue, O triste não comprehende!

Sembrão-lhe então formidaveis Os p’rigos que elle affrontou; Figura risonhos quadros Dos gozos que já gozou, Do que na terra o convida, Dos que na terra deixou.

Do que outrora foy passado E mais do que vai passando, Medonho e máo parallelo Vai o mesquinho traçando; Dôr de espinhos penetrantes O peito lhe está varando.

Dias lembrar já passados E já passada ventura, Quando o viver he tormento, Tormento que sempre dura, He certo desdita grande E muito grande amargura.

Mas vede o que val a vida! He aquella aventurada, Se dizemos verdadeiros: Houve hum dia, huma hora, hum nada, Não do pezar combatida, Mas do prazer bafejada.

Simelha quem pola calma O dia inteiro vagou, Depois no marco da estrada Cançado e triste quedou; Ally thesouro sem dono, Ventura sua, encontrou.

* * * * *

Era na sancta semana, Semana de devação! Com jejuns e penitencias Apresta-se o bom christão Pera os mysterios mais altos Da mais alta religião.

Quantas coizas que nos fallão N’aquelle passo sagrado D’aquelle homem divino, D’aquelle Deos humanado, Que por amor de seos filhos, Ingratos, foy maltratado!

Não foy por odio ou vingança, Mas por dinheiro trahido! Por hum homem refalsado, Por hum discip’lo querido; Trahido por meio infame!... Hum falso beijo vendido!

Foy mister por mór tormento, Que morresse polos seos! Entregue por hum eleito Nas garras dos Fariseos, Homem morreo polos homens, Morreo judeo por judeos.

C’roou a fronte sagrada C’roa d’espinhos tecida, Correrão dados infames Em taboa vil, denegrida; Em hastea foy rematada Tunica em sangue tingida.

Tormentos, baldões e mófa Quem mais do qu’elle soffreo? Quem mais comprido marteyro, Quem mais affronta e labéo? Tal foy que o homem divino O rosto ao calix torceo.

Tal foy que o Deos humanado Disse ao Deos, que era seu pay: «Senhor Deos, s’inda he possivel, Do vosso intento tornai; Este calix de amargura Dos labios meos affastai!»

Carpindo males alheios, Quantos não vemos per hy, Que nem siquer se recordão De quanto soffreo por si, Hum Deos na cruz affixado, Mil dores soffrendo ally!

Ante esta victima augusta Da mais feroz crueldade, Cala quanto o homem soffre, Quanto soffre a humanidade: Tormento não foy como elle, Não foy como ella impiedade.

E comtudo alguns increos E refalsados atheos, Guardão n’as extasis todas E mais os transportes seos, Pera Socrates que morre, Que não pola dôr de hum Deos!

E não vê a cega gente, Imiga de toda luz, Que longe que vai do Grego Ao Nazareno Jezus, E da masmorra ao calvario, E da cicuta a huma cruz!

E aos effeitos da morte Não attenderão tambem: Se emparelhamos idéas Ás coizas que corpo tem; Entre elles vai mór distancia, Que vai da Grecia á Belem.

Morre o Grego, e não dá fruitos; Morre Jezus por nos dar A ley do céo pera a terra; Ley que só pôde lavrar O sangue do bom cordeiro Dos falsos Deoses no altar.

Vivem algozes d’aquelle, E huns homens apenas são; Em quanto os algozes deste, Em que povo de eleição, Sumirão-se, como argueiro Nas azas d’hum furacão.

* * * * *

Era na sancta semana, Semana de devação: Comsigo mesmo propunha O senhor rey Dom João: «Confessarei minhas culpas, Que alem de rey, sou christão.

«Ao Senhor, pay de nós todos, Meos erros confessarei; Que me dê força indomavel Pera guardar minha ley, Pera punir os culpados; Que alem de christão, sou rey.»

Azinha chamando hum pagem Lhe diz, e lhe ordena assi: «Hide aos Padres Dominicos (Melhor lhes quero que a mi) Dir-lhes-heis que sou lá prestes, Que vou commungar ally.»

Veio logo o mensageiro Com a mensagem real; Recado qu’el-rey lhe dera, Dá elle ao Provincial. «He certo mercê mui grande, Responde,--tenho-a por tal.»

Ao padre Thomaz da Costa Chama n’huma Ave-Maria; Sabia o bom do Prelado O muito qu’el-rey lhe qu’ria: De tam lisongeiro acerto Comsigo mesmo sorria.

Demais que o bom do Prelado Dizia com bem justeza: «Prazer aos Reis cá da terra Não he nenhuma vileza; Praz a Deos que lhes prazamos, Pois vem delle a realeza.»

Apresta-se com trigança Tudo quanto era mister: Sabia o Padre Thomaz Encargos do seo dever; «Vergar colossos, dizia, Quem tem posses de o poder?

«Sob as mãos do jardineiro Torto arbusto lá se ageita; Mas onde existe essa força Que hum rudo tronco sugeita, Se a força he balda no tronco, Se o tronco a força regeita?

«Em bem do pastor sagrado, Que por mercê divinal Vive no ermo escondido, Como hum singelo zagal; Cúra pastor de pastores, Não de pessoa real.

«He facil o seo encargo, Pejo, nem dôr lhe não traz; Não he assi nos palacios, Onde só vejo disfraz: Vêm logo as razões de estado, Inventos de Satanaz.

«Vêm logo as leys cá da terra Contrapor-se ás leys dos céos: Sêde christãos, reys senhores, Ou então de todo incréos! Leys dos homens não se cazão, Não seguem ás leys de Deos.

«Não ligueis n’hum só consorcio Terra feia e céo luzente: Leys da terra a terra buscão, Como a raiz da semente; Leys do céo os céos procurão, Como flor que o sol presente.»

* * * * *

Era aly na pedra raza O senhor rey Dom João; Ante o velho sacerdote Fazia a sua oração, As mãos em cruz sobre o peito, Giolhos postos no chão.

Armas que sempre cingia, Todalas tinha despido; Não tinha sedas, nem joias, Mas peito d’aço batido: Era qual homem vivente Em ferrea prizão mettido.

Curva-se hum rey poderoso Perante hum homem de pé; Perante hum Padre coitado, Que nada tem, nada he: Licção profunda e subida, Preceitos da nossa fé!

Portas á dentro do templo, Onde Deos eterno habita, Onde aquelle amor sem zelos Somente os peitos agita, Nas differenças do mundo Fiel christão não cogita.

Foy assi na antiga Roma Polas festas saturnais, Folgavão, senhor e servo, Como se forão iguais; Mas o que lá foy licença, Aqui são leys divinais:

Aqui são todos curvados, Todos--o servo, o senhor; Aquelles que a vida fruem, E aquelles que só tem dôr; Pobres, que almejão a morte, Ricos, que á morte hão pavor.

Nem he por vil comezaina, Que ally reunidos estão; Mas sim, por que a Deos importa Que não haja distincção Entre irmãos, no patrio abrigo, Rezando a mesma oração.

Sóbe assi aquella prece Da multidão apinhada, Qual lisongeiro perfume Das flores d’huma grinalda; Tem huma odor, outra espinhos, Outras tem côr, outras nada.

* * * * *

Era aly na pedra raza O senhor rey Dom João; Já disse as culpas que tinha, Já fez a sua oração: O Padre vai ministrar-lhe A hostia da communhão.

Tem no rosto grave e serio Expressão nobre e subida; Maneiras cheias de brio Em postura comedida, Parece que vão mostrando Quanto val o pão da vida.

Parece que mostra, quanto Por vil e baixo se tem, Merecendo honra tamanha, Que a não merece ninguem; Dahy lhe vem ser humilde, Nobreza dahy lhe vem.

Perfez-se o rito sagrado, Vai ser dado o sacramento; Principia el-rey--confiteor,-- Quando n’aquelle momento Surge ao pé delle um guerreiro De marcial hardimento.

Tinha feroz catadura, Só aço e ferro vestia, Polas grades da vizeira Raios de luz despedia: Medonho e fero apparato Nas sombras da sacristia.

Era o rey brioso e forte, Homem de muito valor, Mas olhos lançou á espada A furto!... seja o que for, Não creio que homens d’aquelles Possão jamais ter pavor.

Em voz carregada e forte Assi começa o guerreiro: «Em nome do Senhor Deos, Meo Padre, aqui vos requeiro; O senhor rey não commungue, Pois que não he justiceiro.»

A hostia das mãos do Padre Cahio do calix no fundo; El rey carrega os sobr’olhos... Certo não era jocundo Affrontar de rosto a rosto As sanhas de João segundo.

Era então fresca a memoria De hum caso máo, miserando: De noite se ergueo a forca; Mas quando o sol foy raiando, Não vio ninguem mais a forca, Nem mais ao duque Fernando!

Comtudo o bravo guerreiro Sanhas do rey não quiz ver; Não ha que lhe ponha embargos, Nem que lhe possa empecer: «Senhor, sou Padre Tavares!» Fita-o el-rey sem querer.

Depois lhe diz (que tal nome Quebrára a furia real): «Em bem, meo bravo guerreiro! Mas esse trem, de que val? Somos em terras d’Hespanha, Ou somos em Portugal?»

--«Senhor, não uzo brocados Vedes-me assi, e he razão, Que havedes os meos haveres Sem me deixardes, senão Armas comidas no peito, Armas gastadas na mão.

--«Fui ter ao vosso palacio, Ninguem me não conheceo; Quantos ally são comvosco, Eu vos direi, senhor meo: Nunca os eu vi nos combates, Nunca na guerra os vi eu!

--«Voltei d’ally, protestando Jamais não voltar ally; Conheceis as minhas armas, Se não conheceis a mi; Vesti-me á modo de guerra, Vim ter comvosco,--eis-me aqui!

--«As minhas alcaydarias De Portal’gre e Assumar, Senhor rey, vós m’as tirastes, O que se chama tirar; Ficavão perto da raya, Máo azo de guerrear.

--«Das minhas alcaydarias Eu tinha as rendas reais; As guerras já são passadas, Porque ora m’as não tornais? Mal cabe em reys a cubiça, Senhor, se m’as cubiçais.

--«Nem porque o velho guerreiro Já nada vos presta e val, Vos deveis portar com elle, Qual dono pouco leal, Que o seo corsel de batalla Despreza no almargeal.

--«Assi que, Senhor, vos digo Que vos não peço mercê; Aquillo que me he devido, Só peço que se me dê!--» Prouve ao rey aquelles ditos E mais o geito que vê.

Depois a mão estendendo Ao seo leal lidador: «Nós vos faremos justiça, Assi como justo for; Tendes a nossa palavra, Seja-vos ella penhor!»

Alegre o Padre Thomaz O seo mister rematou; Hostia tomada do calix Aos labios do rey chegou, El-rey d’hum copo doirado Hum gole d’agoa tomou.

Mimoso tempo d’outrora Qual nunca mais o verei, Nem tam inteiros sugeitos, Hum ao outro dando a ley: No Paço o rey ao vassallo, Na Igreja o vassallo ao rey!

* * * * *

SOLÁO DE GONÇALO HERMIGUEZ.

Não ha mais d’aquelle tempo, Em que era tudo lhaneza! Acções e vida e costumes Desta gente portugueza, Por tal geito se trocárão, Que he hoje tudo impureza.

Não trato d’este ou d’aquelle, Pois ha em tudo exeições; Mas trato da grande lépra Que vejo hy nos corações: Desprêso do amor da gloria E apêgo ás ruins tenções.

Outrora, sabeis vós como Garboso Donzel se havia Por captar nobres extremos Da moça que requeria, Sempre grave, honesto e brando, Sempre uzando cortezia?

Não trescalava pivetes, Fitas, nem laços comprava, Nem toda a manhã divina Seos enfeites concertava, Nem nos chapins se revia, Nem nos cabellos primava.

Não corria seca e meca Traz de mimosa donzella, Que nas ruas lobrigava; E por ver mais perto a bella Não hia ao templo sagrado, Somente por amor della.

Nem as noites janeirinhas Mais compridas e mais frias, Levava mono amante, Por baixo das gelozias, Desenfiando hum rosairo De trovas e ninharias.

Jamais não foy esse o estilo Do moço em armas novel, Em que experto dedilhasse Na lyra do menestrel, No tempo em que, não domada, Lutava a gente infiel.

Por mais que amores amasse, Por mais que fosse gentil, Ninguem n’o vira a deshoras, Como homem de tenção vil, Como hum ladrão que de medo Vai passo e manso e subtil.

Não pedia manto ás sombras, Nem ao silencio mercê, Nem do sol se arreceiava, Como homem que pouco vê, Nem da lua appellidada A casta, não sei porquê.

Mas antes no amphitheatro, Coberto de espectadores, Onde mais povo corria, Mais bellas e justadores, Na arena se apresentava Com letra e tenções d’amores.

No meio d’aquella chusma D’arautos e passavantes, Mantenedores do campo Reys d’armas e circunstantes, Feixes d’armas resplendentes, Ondas de plumas brilhantes:

Entrava o novel guerreiro No cerco dos justadores! De alguma dona sizuda Na charpa trazia as cores, Tinhão amores ás claras, Por que erão nobres amores.

Silencio! que sôa a trompa, A justa vai começar! Entre si ferem mil lutas Guerreiros a par e par: Da lança feita pedaços Voão estilhas ao ar.

Levão logo mão da espada; Que feios golpes se dão! Abolão-se capacetes, Talhão-se arnezes; e a mão Certeira ao travez da malha, Vai direita ao coração.

La sôa de novo a trompa, Proclama-se o vencedor, Que aos pés da bella entre as bellas O seo trophéo vem depor: Ao mais valente a mais bella, Ao mais gentil mais amor.

Era a ley,--e até parece De acordo co’a natureza, Que se compraz no consorcio Da força co’a gentileza; Mais alma com mais coragem, Mais brio com mais nobreza.

A abelha construe seos favos Em troncos alevantados; E eis a hera graciosa, Que em abraços apertados Não cinge mesquinho junco, Mas carvalhos alentados.

Boa era a ley!--mas eu creio Que lhe descubro hum senão; Quem nos diz que o mais valente Deva de ter mais razão, Porque seja a sua dona Como hum vaso d’eleição?

Seria coiza de ver-se, E coiza de mui folgar, Ver um dragão de mulher, Chamada a bella sem par, Á pura força de espada, Sem mais pôr, nem mais tirar!

He bella: e al não digais, Sob pena d’hum fendente, Que vem do céo, como hum raio, Provar ao villão que mente, Co’os dentes que tem na bocca, Como hum perro maldizente!

Fosse o caso como fosse, He certo que d’ahy vem Ás nossas donas de agora, Aquelle sestro que têm De amarem a militança Melhor do que a nenhum bem.

Qual não gosta de ser bella, Ao menos de o parecer? Em quanto muitas ... Deos meo, Eu me sei compadecer, Soffro o mal que os outros passão, Mais talvez que o meo soffrer.

Muitas ha hy, que eu conheço, Que aqui na terra não são, Senão porque as vós mandastes, Meo Deos, por occasião De tedio e nojo ao peccado, E morte da tentação.

Té os moços, que as namorão, Dirão no confessional, Jurando por Deos eterno E pola vida eternal, Que se fallão delle e della, He puro aleive e não al.

Vede pois qual não seria O pasmo dessa donzella, Proclamada ao meio dia Fermosa como huma estrella, Sem que houvesse ahy no mundo Coiza melhor, nem mais bella!

Logo no fraco bestunto Julgára, sem mais razão, Que n’este mundo mesquinho He tudo engano e buzão, E té que a propria belleza He coiza de convenção!

Era assi que n’outras eras Garboso donzel se havia Por captar nobres extremos Da moça que requeria, A ponta de fina espada E arrojos de valentia.

* * * * *

No tempo de Alphonso Henriques, Que foy nosso rey primeiro, Havia na sua côrte, Côrte de rey mui fragueiro, Hum tal Gonçalo Hermiguez, Destemido cavalleiro.

Era moço e mui donoso, De mui boa nomeada: Fiava el-rey muito delle, E a raynha Mafalda Folgava de ouvir-lhe os cantos Aos sons da lyra afinada.

Portas a dentro do Paço Não tinha nenhum rival Em compor trovas mimosas; E no campo e no arrayal Não n’o havia mais valente, Mais forte, nem mais leal.

Quanta sanha que elle tinha, Votára a gente infiel, Porque o pay lhe havião morto, Era elle ainda novel; Vel-os porêm não podia, Nem pintados no papel.

Era o mesmo ver a hum destes E entrar logo em sanha tal, Que era força ter mão d’elle, Ou saltava-lhe ao gorjal Pera torcer-lhe o gasnate, Como se fôra hum pardal.

Mas se tinhão tento n’elle, Era outro conto ruim! Cabia logo em desmaios, Que era hum desmaio sem fim! Dó era ver tal sugeito Prostrado e defuncto assi.

Andava sempre occupado Em perpetua correria Polas terras do mourisco, E muito mal lhes fazia; Dava porêm mór realce Ao nome que já trazia.

* * * * *

Como fosse e os companheiros Em hum saráo folgazão, Lembrou-se que perto vinha A noite de Sam João, Azado ensejo de aos Mouros Fazer-se affronta e lezão.

Cheia de bello hardimento, Aquella nobre nobreza Por amor de seos amores Commette tam grande empreza, Qual a de hir terras de Mouros Com feros, ronco e braveza.

Qual apresta o seo ginete, Qual a fita dependura No collo nunca domado; Qual a pesada armadura Inverga, e ahy se recolhe, Como em arce mui segura!

Qual a Deos por testemunha Toma da sua tenção, Qual aos pés da sua dona Requer-lhe extremo condão, Extremo volver dos olhos, Extremo apertar da mão!

Qual desly toma algum nome Por grito de accommetter, Que nas lidas e pelejas Saberá fazer valer! Qual sente o nojo futuro, Em mal, que lá vai morrer!

Mas nunca será que o rosto Mostre o que n’alma lhe mora: Quem vio a morte passar-lhe De perto, já não descora Por hum presagio funesto, Sendo ella coiza d’huma hora.

* * * * *

Aquelles bons cavalleiros Azinha promptos estão; Lá se partem de Coimbra, Montes alem já lá vão! Ninguem vio mais escolhido, Nem mais luzido esquadrão.

Entre elles por mais robusto Gonçalo Hermiguez campeia; Diz seo porte sublimado, Que de nada se arreceia, Mas antes que a todos repta, De tanto que o collo alteia!

Caminho vão de Lisboa Com todo apercebimento! Não convem que se aprecatem D’aquelle accommettimento Mouros que vivem na regra Do seo alkorão nojento!

Sabeis a regra qual seja? He viver dentro do harem, Dizendo mal do toicinho E mais do vinho tambem, Sem que lhe pêze este mundo, Sem que lhe pêze ninguem!

He vegetar entre flores, He viver vida folgada, Aspirando incenso e odores Em molleza effeminada, Nem que fosse huma odalisca, Ou mulher alambicada.

* * * * *

Pozerão todos a mira Em Alcacere do Sal, Covil de feras humanas, Não de cordeiros curral; Nó gordio do vil mourisco, O ferro o corta, não al!

Os que por terra a demandão Vão em procura d’Almada, Alcáçova dura e forte, Em rija pedra assentada, Como pedra preciosa Em ferrea c’roa engastada.

Outros lá vão Tejo arriba! Ó Tejo, quanto me he grata Essa placida corrente, Quando a lua se retrata, Chovendo chuva de raios, No teo chão de lisa prata!

Que doce que he teo remanso, Quando manso o vento gyra, Que nas folhas rumoreja, E como que ally suspira Melindres d’amor suave, Que nem tangidos na lyra!

Que arroubos que infiltras n’alma, Quando vai ao som das agoas Navegando o passageiro; Já, se as tem, não sente as fragoas, Que no peito a dôr derrama, Como huma enchente de magoas!

Mas talvez dos cavos olhos Polas faces a correr Sinta o pranto represado Polo seo muito soffrer: Corra embora, qu’esse pranto Dôr não he, senão prazer!

Que neste val’ de amarguras, Onde viemos penar, Por cada dia hum marteyro Por cada instante hum pezar, He bem feliz quem só passa Dores que fazem chorar!

Não sei ledice o que seja, Nem o que seja prazer; Nunca os senti n’esta vida, Nem n’os posso conhecer; Que não sou dos bemfadados, E nunca o não hei de ser!

Mas o pranto extravasado Não he quem nos dá morrer, Nem quem o viço dos annos Faz seccar e emmurchecer; He antes aquelle pranto Que não sabemos verter.

* * * * *

Lá vão hindo Tejo acima, Olhos longos polo mar, Lá onde enchergão Lisboa Com fogueiras de espantar; Fogo accendido na terra Sóbe em centelhas ao ar!

D’aquelles fogos accesos Em roda os velhos estão, E as donzellas feiticeiras Com sorriso folgazão, Cantando coytas de amores, Quites de coytas então.

He a noite milagrosa Do Bautista milagroso, Té dos mouros da mourama Havido por glorioso: Folgão nobres e senhores, Folga o villão descuidoso.

Horas de noite folgada Não tardão, não têm vagar: A noite assi do Bautista Vai serena a escorregar, Como areia da ampulheta, Hum grão e outro a tombar!

Vai assi como o perfume Respirado d’uma frol, Que não vemos, mas sentimos; Que sentimos no arrebol Da manhã, que pola terra Se espalha em antes do sol!

Vai assi como o rocio De serena madrugada, Rorejado gota a gota De branca nuvem prenhada Sobre o calice musgoso De huma flor avelludada.

Vai assi, qual sóe prender-se, Em quem de amores não cura, Doce peçonha de amores: Donzella de vida pura, Quando ha temores de havel-o, He qu’elle já não tem cura.

* * * * *

Do Alcacer as lindas filhas, Já era nascida a aurora, Pera ver uma corrida Sahirão portas a fóra, E mais pera colher flores, Persuadidas da hora.

Logo sahidas no prado Forão, qual sohem de ser Mansas agoas d’hum regato Em chão sem leito a correr, Cada qual por seo caminho, Cada qual a seo prazer!

Desly pulando e cantando Vão nas matas de alecrim, Colhem a rosa corada E a branca flor do jasmim; Brincão brinquedos contentes, Folgão folguedos sem fim!

Oh! que festas! que alegrias! Que arruido vai no prado! Que bem cantado rimance, Que soláo tãobem cantado! Não têm as aves atito, Nem gorgeio mais brincado!

Oh! que vozes melindrosas, Que accentos encantadores N’aquelle prazer d’huma hora! As moças vão colher flores, E os moços que vão com ellas Vão lá por colher amores.

Eis nisto ... estranho arruido! Rouca trompa abala o ar; Logo assomão cavalleiros Com figuras de espantar: Allah nos valha, mofinas! Dizem moiras a chorar.

Allah! repetem n’os Mouros, Vendo o pendão portuguez; E do alfange recurvado Levão mão sem pavidez! Feios golpes se preparão, Outra folgança outra vez!

Retine o ferro no ferro, Talhão-se cotas e arnezes; O fino alfange mourisco Abre o elmo aos portuguezes; E a espada que bem degola, Bem multiplica os revezes.

Lá chega o alarma á Cidade! Lá vem mouros descançados Em descançados ginetes: Cavalleiros esforçados, Que por Christo Deos pelejão, Não têm de que ter cuidados.

Gonçalo Hermiguez, o cabo, Avante! brada, e não al: Brilha o valente nas lides, Que ally não acha rival, Aquelle cabo entre todos Sanhudo e forte e fatal.

Maneja tam facilmente O seo pesado montante, Que Alcides com sua clava, E nem o Titan gigante, Serra a serra sobrepondo Não tinha aquelle semblante.

Eilo vai per entre os mouros, Abre entre elles larga estrada; Quem fica em prisão de guerra, Quem lá foge em debandada! Ficão moiras prisioneiras, Mulheres--gente coitada!

Gonçalo Hermiguez em tanto Vio que longe lhe fugia Linda moira desmaiada, Que hum moço mouro cingia, Dando d’esporas ao bruto, Que mais que o vento corria!

Vai sobre elles sem tardança: Com quanto de arremeção Matal-o tambem podera, Certo o fizera, senão Temesse que a moira bella Morresse de sua mão.

Mais logo que foy com elle, D’hum golpe que despedio, Cerce o cortou pelo meio: Golpe assi nunca se vio! E a moira tomando em braços, Azinha daly fugio.

Passou terrivel com ella Por meio da gente fera; Quem n’o vira tam sanhudo, Leão raivoso dissera, Passando a travez dos homens Com a preza que fizera.

Eis nasce novo combate, Nova peleja maior! Muitos homens contra hum homem, Contra hum forte lutador; Mas hum só que a todos vence Em força, esforço, e valor!

Mal podia a mão sinistra Vibrar a sangrenta espada, Co’o pejo d’aquella moira Disputada e desmaiada, Cujo corpo em dois pendia, Como huma frexa quebrada.

Mas inda assi despedia Hum golpe e outro cruel: E de encontro á este, á aquelle Mandava o seo bom corsel, Que a turba multa alastrava Aos pés do nobre donzel.

Quando a ventura he incerta, Acerta em aventurar Quem a empreza disputada Tem desejos de acabar: Só elle demora em terra, Que os seos já são sobre o mar!

Torce as redeas ao ginete, Larga carreira arrepia, Larga estrada co’o montante Por entre os mouros se abria, Despedia muitos golpes, Muitos estragos fazia.

Chega a praia, os seos avista Mas os mouros perto vêm! Como isto vio, torce o rosto, Medonho como ninguem; Temem-se mouros de o verem; Párão, como elle, tambem!

Vão assi feros monteiros Traz d’hum urso mal sangrado, Que de repente a carreira Revira, e vólta agastado: Parão monteiros ao vel-o Raivoso e mal assombrada.

E a fera d’aquelle pasmo, Sabendo, em seo bem, valer-se, Vai a passos descançados Em densa mata esconder-se, Sem temor da montaria, Sem dos monteiros temer-se.

Tal o forte Traga-mouros Salta dentro do baixel; Na praia ficão pasmados Mouros, do feito novel, Tamanho, que nem sonhado Foy jamais por menestrel.

E os companheiros aos ventos Desfraldão velas e panos, Deixando as praias tingidas Em sangue por muitos annos; Quantos bastem, porque chorem Seo dezar os musulmanos.

Aos alegres companheiros Disse o guerreiro feliz: «Das prezas, que nos fizemos, Quero tam só a que eu fiz, A moira que por seo nome Fatima em Turco se diz!»

Então aquelle seo canto Principiou a compor: Cant’eu, por vergonha minha, Em bem que o saiba de cór, Digo que sal lhe não acho, Nem sei de coiza pior.

Mas era o soláo por certo Aos tempos accommodado, Que de outro cantar não acho Que fosse mais decantado, Nem Figueiral Figueredo, Nem o Ficade coitado.

E a moira já bautisada Pertenceo ao lidador, Duas vezes conquistada Polo donzel, seo senhor, Primeiro á força de espada, Depois á força de amor.

* * * * *

Era assi n’aquelle tempo Coiza sabida e seguida, Remanso depois da gloria, Descanço depois da lida, E a fé que espera e milita Nos actos todos da vida!

Vede vós quamanho he o lucro, Que lucra a moira pagã, Desposando o cavalleiro, Tomada e feita christã; He vida e sangue de hum homem, Não de infieis barregã!

He como tropheo ganhado Em guerras de religião Por algum peito devoto, Que por sua devação Prometteo dependural-o Dentro de templo christão.

O canto aqui finaliso! Não devo d’hir por diante, Narrando casos da vida Per natureza inconstante, Trabalhos que sempre durão, Prazer que dura hum instante!

Foy o cabo dos amores A moça moira acabar E sobre hum covão aberto Hum homem posto a chorar, Hum homem de dó coberto, A carpir-se, a prantear!

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ULTIMOS CANTOS.

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AO MEU CARO E SAUDOSO AMIGO O DR. ALEXANDRE THEOPHILO DE CARVALHO LEAL OFFERENDO-LHE ESTE VOLUME DE POESIAS, quando pela primeira vez forão impressas.[4]

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Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com as dores de um espirito infermo,--ficticias, mas nem por isso menos agudas,--produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse por si bastante penosa, ou que o espirito, affeito a certa dose de soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.

No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados pungentes,--inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado--percorri este primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer--eis toda a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indiziveis, e nunca satisfeitos,--caprichosos como a imaginação,--vagos como o oceano,--e terriveis como a tempestade; e estes soffrimentos de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis, renascentes,--ligados a minha existencia, reconcentrados em minha alma, devorados commigo, umas vezes me deixarão sem força e sem coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia, ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.

Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu paiz; se algumas vezes tive o maior prazer que me foi dado sentir--a mais lisongeira recompensa a que poderia aspirar,--de as saber estimadas pelos homens da arte, daquelles, que segundo o poeta, porque a entendem, a estimão, e repetidas por aquella classe do povo, que só de cór as poderia ter aprendido, isto é, dos outros que a comprehendem, porque a sentem, porque a adivinhão--paguei bem caro esta momentanea celebridade com decepções profundas, com desenganos amargos, e com a lenta agonia de um martyrio ignorado.

Melhor que ninguem o sabes: podes a teu grado sondar os arcanos da minha consciencia, e não te será difficil descobrir o segredo das minhas tristes inspirações. Os meus primeiros, os meus ultimos cantos são teus: o que sou, o que for, a ti o devo,--a ti, ao teu nobre coração, que durante os melhores annos da juventude bateu constantemente ao meu lado,--a aragem bemfazeja da tua amizade sollicita e desvelada,--a tua voz que me animava e consolava,--a tua intelligencia que me vivificava--ao prodigio de duas indoles tão assimiladas, de duas almas tão irmãs, tão gemeas, que uma dellas rematava o pensamento apenas enunciado da outra, e aos sentimentos unisonos de dous corações, que mutuamente se fallavão, se interpretavão, se respondião sem o auxilio de palavras. Duplicada a minha existencia, não era muito que eu me sentisse com forças para abalançar-me a esta empreza; e agora que em parte a tenho concluido, é um dever de gratidão, um dever para que sou attrahido por todas as potencias da minha alma, escrever aqui o teu nome, como talvez seja o derradeiro que escreverei em minhas obras, o ultimo que os meus labios pronunciem, se nos paroxismos da morte se poder destacar inteiramente do meu coração.

Ser-me-hia doloroso não cumprir os teus desejos,--não satisfazer as esperanças, que em mim tinhas depositado,--não realisar a expectação da tua desinteressada amizade. Entrei na luta, e procurei disputar ao tempo uma fraca parcella da sua duração, não por amor do orgulho, nem por amor da gloria; mas para que, depois da morte de ambos, uma só que fosse das minhas producções sobrenadasse no olvido, e por mais uma geração estendesse a memoria tua e minha. Assim passa a onda sobre um navio que soçobra, e atira á praias desconhecidas os destroços de um mastro embrulhado nas vestes dos navegantes.

Entrei na luta, e por mais algum tempo continuarei nella, variando apenas o sentido dos meus cantos. A fé e o enthusiasmo, o oleo e o pabulo da lampada que alumia as composições do artista, vão-se-me esfriando dentro do peito; eu o conheço e o sinto; se pois ainda persisto nesta carreira, é por teu respeito: continuarei--até que, satisfeito dos meus esforços, me digas: basta!--Então, já t’o hei dito, voltarei gostoso á obscuridade, donde não devera ter sabido, e--como um soldado desconhecido--contarei os meus triumphos pelas minhas feridas, voltando á habitação singela, onde me correrão, não felizes, mas os primeiros dias da minha infancia.

Minha alma não está commigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos, involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ella!--lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a susurrar nos leques das palmeiras: lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores amarellas. Alli sim,--alli está--desfeita em lagrimas nas folhas das bananeiras--desfeita em orvalho sobre as nossas ores, desfeita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei enchugar os meus vestidos, voltar aos gozos de uma vida ignorada, e do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu affrontar as borrascas desencadeadas no oceano, que eu houver para sempre deixado atraz de mim.

Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.

A. GONÇALVES DIAS.

POESIAS AMERICANAS.

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