III.
PASSAMENTO.
Era um quarto espaçoso;--alli se vião Rojar no pavimento, ha pouco, as sedas, Ricos tapetes multicor bordados, E franjas complicadas d’um céo d’oiro Pendentes,--vastos rases narradores De lenda pia ou de briosos feitos. Mas de tanto luzir, de tanto ornato Ora por mãos aváras depredado O vasto d’área revelava aos olhos, Tendo n’um canto escuro um leito apenas. Do leito alguem rasgára o cortinado. E da curva amação polida e bella Aqui, alli, pendia a seda em fios, Bem como tranças de mulher formosa Por sobre o seio nú.--Alli no leito Jazia um moribundo; em torno os olhos Cheios de pasmo e de terror volvia, Bebendo pelos sofregos ouvidos Mal sentido rumor d’outro aposento. Confusas vozes, altercar ruidoso, E o tinir de metal ouvia apenas! Então por vezes tres no leito afflicto Erguer-se maquinou de raiva insano! Por tres vezes cahio, gemendo, sobre O leito que da queda se sentia.
Da morte o cru torpor nos membros frios Pouco e pouco s’espalha; mas teimoso Da vida o amor debate-se nas ancias Desse passo fatal... --Eis nisto á porta. Um Padre assoma,--d’entre as mãos erguidas Da hostia sancta resplendor luzia; E palavras de paz, de amor, divinas, Que nos labios do justo Deos entorna, Abundantes soltava. Longos annos De piedoso soffrer o corpo enfermo Alquebrárão por fim; as cãs nevadas Raras tremião sobre a testa, como Tremia na garganta a voz cançada.
Dizia o bom do velho:--«Irmão, nas ancias, «No extremo agonisar da morte amiga «Ergue os olhos ao céo;--do céo te venha «Esse divino amor, que só lá mora, «Que filtra por nossa alma, que nos deixa «Mais celeste prazer, mais doce arroubo, «Do que a terra sóe dar... «Infames, trédos, «Bufarinheiros de palavras, corvos «De negro, feio agoiro, que esvoação «Com grito grasnador por sobre o campo, «Onde a peleja de reinar começa; «Dizes-me tu--a mim! a mim que ao fóro «Caminho inda hoje entre alas de clientes, «Que so me visto de velludo e d’oiro, «Em quanto vives de burel coberto, «Co’os labios sobre o pó mordendo a terra! «Dizes-me tu--a mim!...» Ergueo-se,... e o corpo Cahio de fraco sobre o leito; o velho No emtanto humilde orava, que alma sancta Do mal cabido insulto não se offende.
Jehovah, que entre myriadas Vives de estrellas formosas, Que das flôres melindrosas Da terra--os anjos formaste; Jehovah, que pela agoa Lustrar quizeste o Messias, Que ao beato, ao sancto Elias Nas chammas purificaste;
Jehovah, que a mente apuras No fogo do soffrimento, Que divino, alto portento Déste fazer á Moisés, Quando a negra rocha dura Tocando co’a tenue vara, Rebentou a lympha clara, Lambendo-lhe mansa os pés;
Jehovah, que eterno existes, Cujo ser em si se encerra, Que formaste o céo e a terra, Que te chamas--o que é,[2] --Faz, Senhor d’altos prodigios, Com que a mente empedernida Não se aparte desta vida Sem sentir a sancta fé.
E tu, Christo, que soffreste Martyrios por nosso amor, Tu que foste o Salvador, Salva-o, Senhor, por quem es. Dá que em palavras piedosas Se derrame contristado, Como o rochedo tocado Pela vara de Moisés.
E o confuso rumor do outro aposento Crescia mais e mais.--Do moribundo Os cúpidos herdeiros dividião Por si a vasta herança; os torvos olhos Ião de rosto a rosto, fusilando Ameaças de morte.
No entanto o velho exanime e sem forças Curtia amargos transes, que avarento, E tendo a vida inutil presa a terra Com toda a força d’alma,--agora em ancias Sentia o halito vital fugir-lhe, E a terra abandonal-o.
Estuava-lhe a dôr no peito afflicto!... Só não chorava, que do pranto a fonte Jazia extincta; mas pensava triste: --Não tinha alguem que lhe cerrasse os olhos Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo Do extremo agonisar.
E a mente, já medrosa, em feio quadro Lhe pintava os seos feitos;--a vingança, Que tão grande prazer lhe tinha sido, Ora em martyrios se tomava; a chusma Dos homicidios seus crescia torva, E no leito o cercava.
Crença infantil! dizia; loucos, cegos Prejuizos do vulgo;--e assim dizendo Os vãos phantasmas repellir buscava. Mas a crença infantil, os prejuizos Do nescio vulgo, rispidos tornavão, Como insecto importuno.
Debalde por não ver cerrava os olhos, Sobre os olhos debalde as mãos crusava, Que as sombras nos ouvidos lhe fallavão, E mais distinctas se pintavão n’alma --Tão bem molesta, qual se pinta o corpo Do espelho no polido.
E do seo passamento o caso infando Narrava uma após outra, sobre o peito Mostrando o golpe funebre e cruento; Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo Parecia sorrir!... era qual louco Que soffre e um riso finge.
E das visões indo a fugir se arroja De sobre o leito delirante; as sombras Vôão sobre elle, e em circulo se ordenão. O moribundo a esta, a aquella, a todas Volvo o pavido rosto, no mover-se Progressivo, incessante.
E preso ao duro embate da vertigem. As mestas sombras ao redor com elle Fugir sentia; o pavimento, a casa Rapido rodava; a terra e tudo, Como aos soluços d’um vulcão tremendo, As forças lhe tolhião.
E o orgulhoso que feliz vivera, Movendo a seo bom grado mil escravos, Querendo a terra dominar co’um gesto; Ora mesquinho, solitario e louco, Face a face lutando com seos crimes, Morria impenitente.
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