Chapter 36 of 141 · 208 words · ~1 min read

VI.

Houve tempo em que eu pedia Uma mulher ao meo Deos, Uma mulher que eu amasse, Um dos bellos anjos seos.

Em que eu a Deos só pedia Com fervorosa oração Um amor sincero e fundo, Um amor do coração.

Qu’eu sentisse um peito amante Contra o meu peito bater, Sómente um dia ... sómente! E depois delle morrer.

Amei! e o meo amor foi vida insana! Um ardente anhelar, cauterio vivo, Posto no coração, a remorde-lo. Não tinha uma harmonia a natureza Comparada a sua voz; não tinha côres Formosas como as della,--nem perfumes Como esse puro odor qu’ella esparzia D’angelica dureza.--Meos ouvidos O feiticeiro som dos meigos labios Ouvião com prazer; meos olhos vagos De a ver não se cansavão; labios d’homens Não poderão dizer como eu a amava! E achei que o amor mentia, e que o meo anjo Era apenas mulher! chorei! deixei-a! E aquelles, que eu amei co’o amor d’amigo, A sorte, boa ou má, levou-m’os longe, Bem longe quando eu perto os carecia. Conclui que a amizade era um phantasma, Na velhice prudente--habito apenas, No joven--doudejar; em mim lembrança; Lembrança!--porém tal que a não trocára Pelos gozos da terra,--meos prazeres Forão só meos amigos,--meos amores Hão de ser neste mundo elles sómente.