I.
Morreste, como a folha verde e linda, Que não vio murcho o esmeraldino encanto; Bem como um ai que melindroso finda, Em quanto as faces não roreja o pranto!
Bem como a flôr inda em botão cortada, Em quanto aromas recendia pura; Bem como a onda quando mal formada, Nos brancos frisos do areal murmura!
Bem como a aurora timida que morre, Em quanto os céos de rosicler matisa; Bem como o sopro de ligeira brisa, Que entre os olores da manhã discorre!
Mimosa espr’ança do Brasil, batendo Ás ferreas portas da existencia, viste O mundo afflicto e a humanidade triste Seu negro fado e sua dôr soffrendo!
Cheio de compaixão atraz voltaste Do horrifico espectaculo, tapando Com as azas do anjo o rosto brando, E no seio do Eterno te asylaste.
Morreste! como aurora sem poente, Como flôr, que perfume inda exhalava, Como o sopro da brisa recendente, Como a onda, que apenas se formava!
Morreste! como a folha verde e bella N’um tronco forte a despontar louçã, Não arrancada á sanha da procella, Mas leve solta aos beijos da manhã.
Morreste! como lampada brilhante, Inda virgem, sem dar mystica luz; Ou turib’lo d’incenso crepitante, Esquecido nos braços de uma cruz.
Morreste! e os anjos da eternal morada Levárão entre palmas e capellas Tua alma, como uma harpa não tocada, Áquelle, cujo throno é sobre estrellas.
Morreste! como aurora sem poente, Como flôr que perfume inda exhalava, Como o sopro da brisa recendente, Como a onda que apenas se formava.
Nenhum bulcão toldou a aurora maga, Em quanto no horisonte apavonou-se, A brisa em vendaval não transtornou-se, A folha em cinza, nem a onda em vaga.